“Criamos deuses para justificar fenômenos da natureza ainda desprovidos de explicações científicas. Se não acreditamos mais nos deuses pagãos (como Zeus e Poseidon), por que ainda acreditar em Deus?” Esses são questionamentos e críticas comumente direcionados à crença em Deus. Como respondê-los?

Inicialmente, impera admitir que, sim, nossos antepassados criaram deuses para explicar os fenômenos da natureza e fatos desconhecidos. Mas não apenas por esses motivos; o fizeram mormente por fatores comuns aos povos de todas as épocas (alguns elencados por diversos intelectuais, como o jornalista americano Ross Douthat – em entrevista ao programa “Real Time” – e o filósofo britânico Richard Swinburne): a sensação de vivermos num mundo misteriosamente ordenado; a percepção de alguma espécie de lei moral intrínseca aos homens; um embevecimento ante a beleza do mundo; uma espécie de gratidão pelo mero fato de existirmos; e outros diversos. Ademais, os pagãos de outrora, como os religiosos atuais, tiveram experiências místicas e espirituais; assim, elaboraram sistemas e histórias para tentar explicá-las e acabaram criando deuses com os nossos defeitos e virtudes, como potencializações do próprio ser humano.

Depois dessa resposta, surge outra pergunta: se deixamos de acreditar nos deuses, por que o Deus único seria diferente? Os avanços da ciência não seriam suficientes para provar sua inexistência?

Os membros das religiões abraâmicas (judeus, cristãos e muçulmanos), apesar de suas manifestas diferenças teológicas, acreditam que chegou um momento em que o Deus único mostrou sua “face” para a humanidade. Esse Deus não consiste numa mera potencialização do ser humano; mas como melhor explicado pelo Padre e Teólogo americano Robert Barron (baseado em Tomás de Aquino): “(…) Deus não é de qualquer gênero, incluindo o mais comum de todos, o ser. Ele não é uma coisa ou um indivíduo – todavia supremo – entre muitos. Em vez disso, Deus é, na frase latina de Aquino, esse ipsum subsistens, o próprio ato de ser”.

A ciência moderna fornece argumentos sólidos para sustentar a inexistência dos deuses pagãos, aqueles seres que habitavam também o mundo natural, mas não do Deus das religiões do profeta Abraão. Nesse sentido, continua o Padre Barron:

Explorando as profundezas dos oceanos e os topos das montanhas e até os céus que cercam o planeta, não encontramos nenhum desses seres supremos. Ademais, a miríade de causas naturais, descobertas pela física, química e biologia são suficientes para explicar qualquer fenômeno dentro do mundo natural. Mas as ciências naturais, não importa quão avançadas possam ficar, jamais podem eliminar Deus, pois Deus não é um ser dentro da ordem natural. Em vez disso, ele é a razão pela qual existe esse elo de causas condicionadas que chamamos de natureza.

Esse Deus não configura um artifício precário usado para esclarecer o desconhecido ou para preencher lacunas da ciência. Essa posição não corresponde a uma “tática” dos crentes em Deus para tentar “escapar e sobreviver” ante os avanços científicos. Aliás, os primeiros doutores do Cristianismo (como Agostinho) admoestavam a não usar a Bíblia para entender os fenômenos naturais.

Infelizmente, muitos cristãos possuem pavor da ciência e avanços sociais, e utilizam Deus para rejeitar teorias científicas (como a evolução das espécies) e promover o fundamentalismo, inclusive na política. Esses crentes, apesar de boa-fé, rebaixam o Criador a uma egoísta força reacionária e a um simples artifício para preencher supostas lacunas científicas. Para eles, o saudoso teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, parafraseado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Emérito Bento XVI) em seu livro “Introdução ao Cristianismo”, tinha um ótimo conselho:

(…) está na hora de parar de ver em Deus aquele tapa-buraco colocado nos limites de nossas possibilidades que só é chamado quando nós mesmos estamos numa situação sem saída. Deveríamos encontrar Deus não no lugar das nossas dificuldades e do nosso fracasso, mas no meio da plenitude das coisas terrenas e da vida; só assim mostraríamos que Deus não é uma escapatória nascida das nossas necessidades, que se torna supérflua à medida que se ampliam os limites da nossa capacidade.

Isto posto, sigamos, nós que cremos, as palavras do grande Bonfhoeffer e falemos desse Deus único, “não nos limites e sim no meio, não nas fraquezas e sim na força, portanto não na morte e na culpa e sim na vida e no bem do ser humano”.

Fontes:

BARRON, ROBERT. Atheists don’t get God. Disponível em: http://www.realclearreligion.org/articles/2013/10/31/atheists_dont_get_god.html. Acesso em 22 maio 2015.

RATZINGER, JOSEPH. Introdução ao Cristianismo. Preleções sobre o Símbolo Apostólico.  2ª ed. São Paulo: Loyola, 2006;

SWINBURNE, RICHARD. Será que Deus existe? 1ª ed. Lisboa: Gradiva, 1998.

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