As críticas sobre o papel do “Rei do Futebol” na luta contra o racismo são frequentes. Até ex-jogadores e colegas de seleção, como Paulo César Caju, atribuem certa culpa a Pelé pelo racismo no futebol.

Há certa veracidade nas críticas, pois, indubitavelmente, Pelé já deu declarações equivocadas sobre o tema (como, por exemplo, quando, de maneira extremamente infeliz, reprovou as irrepreensíveis respostas de Daniel Alves e do goleiro Aranha aos atos de racismo sofridos por eles) e jamais participou ativamente de movimentos antirracismo e defensores dos direitos dos negros no Brasil e no Mundo; nunca se comportou como outra lenda do esporte da sua época, o boxeador americano Muhammad Ali. Ainda que fosse anacrônico criticar o “Rei” por essa omissão durante sua carreira (afinal, não havia naquela época de forma significativa um sentimento combativo ao preconceito racial entre as celebridades brasileiras), pode-se atacar, com fortes argumentos, sobretudo a postura de Edson Arantes do Nascimento, desde sua aposentadoria até os tempos atuais, por não ter acompanhado a evolução da sociedade sobre o tema.

Entretanto, ainda que fosse ideal e louvável, necessário dizer que Pelé (nem qualquer outra pessoa) não possuía obrigação de se envolver pessoalmente na militância de qualquer tipo. Mas, mesmo sem participar do “ativismo negro”, Pelé teve, especialmente enquanto superastro futebolístico (1958 a 1977), importância na luta contra o racismo. Para tanto, foi suficiente a negritude do maior jogador do esporte mais popular da terra e verdadeiro ídolo mundial numa época extremamente racista. Nessa posição, ele quebrou barreiras até então intransponíveis, como, por exemplo, ser tratado como verdadeira majestade e lenda viva na Europa, e ser o primeiro negro capa da tradicional revista americana “Life Magazine (de um país, Estados Unidos, onde ainda imperavam leis segregacionistas). Ademais, Pelé servia de inspiração ao não demonstrar vergonha de sua cor; essa era a visão daquela época, relatada pelo lendário Mário Filho (autor da clássica obra “O negro no futebol brasileiro”), como explicam os historiadores Francisco Carlos Teixeira da Silva e Ricardo Pinto no livro “Futebol e Política — Memória Social dos Esportes”:

Segundo Mário Filho, o recrudescimento do racismo decorrente da derrota da final de 50 só seria sobrepujado com a vitória do selecionado brasileiro na Copa de 58. Aquela superação passaria pelos pés mágicos de um mulato e de um negro, respectivamente, Garrincha e Pelé. Na verdade, caberia a Pelé metamorfosear o estatuto do jogador de futebol negro. Diferente dos craques negros do passado, Pelé não teria vergonha de sua cor, sentia orgulho de ser preto. Gostava, inclusive, de ser chamada de “O Crioulo”, “o Preto”. Tal postura do maior jogador brasileiro servia de exemplo para os demais atletas que ainda se sentiam inferiorizados com sua tez. Daí a conclusão do jornalista: “faltava alguém assim como Pelé para completar a obra da Princesa Isabel. O preto era livre, mas sentia maldição da cor. A escravidão da cor”.

Percebe-se que, ao revés do que afirmam pessoas como Caju, Pelé, mesmo passivamente, teve importância no combate ao racismo no Brasil e no mundo. Isso foi feito sem violência, sem discursos inflamados*; bastou ser negro, bastou ser Pelé, como demonstrou o grande Mário Filho:

Realmente os pretos do futebol procuraram, à medida que ascendiam, ser menos pretos. Mandando esticar os cabelos, fazendo operações plásticas, fugindo da cor.

Daí a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, mas para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória.

Nenhum preto, no mundo, tem contribuído mais para varrer barreiras raciais do que Pelé. Quem bate palmas para ele, bate palmas para um preto. Por isso Pelé não mandou esticar os cabelos: é preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. Para exaltá-los, exalta o preto.

Por isso é mais do que um preto: é ‘o Preto’. Os outros pretos do futebol brasileiro reconhecem-no: para eles Pelé é ‘o Crioulo’.

Pele with his parents and sister. Foto/photo retirada de (taken from): http://blogmiltonneves.bol.uol.com.br/blog/2014/10/23/hoje-e-o-natal-do-futebol-obrigado-pele/

Pele com seus pais e irmã.
Foto retirada de: http://blogmiltonneves.bol.uol.com.br/blog/2014/10/23/hoje-e-o-natal-do-futebol-obrigado-pele/

* Imprescindível dizer que não subestimo o imenso valor de discursos apaixonados e nem da luta direta e expressa contra o racismo. Sem dúvida, foram e ainda são essenciais…

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