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Um cartaz equivocado; não, os ricos não são mais dignos de confiança que os pobres.

Inicialmente, importante dizer que não censuro o direito de manifestação da população, indispensável à democracia. Entretanto, inegável que houve cartazes absurdos no último protesto do dia 16 de agosto (como os que pediam a volta da tenebrosa ditadura militar, por exemplo). Bom igualmente esclarecer que não cometo a injustiça de igualar a maioria dos manifestantes àqueles que possuem tais pensamentos odiosos.

Pois bem, feitas essas observações, gostaria de tratar de um cartaz em especial, o qual ilustra essa postagem. Um pai cometeu o “crime” de permitir que seu filho desfilasse com a seguinte mensagem (transcrevo literalmente):

“País sem corrupção é país onde rico manda, pois quem é rico não precisa roubar.”

Não são necessários muitos argumentos para perceber a estupidez da frase. Certamente, os ricos estão no poder, ou têm vasta influência sobre quem domina as ações, em todo o mundo, inclusive nos países mais corruptos.

Todavia, o objetivo desse texto é criticar o cartaz sob a ótica cristã; demonstrar sua total incompatibilidade com o cristianismo.

Lembremos do ensinamento de Jesus Cristo: “Em verdade vos digo que dificilmente o rico entrará no Reino dos Céus. E vos digo ainda: é mais fácil o camelo entrar pelo buraco da agulha do que o rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19:24). Como bem explicou o excelente jornalista Reinaldo José Lopes, difícil dizer que a crítica à riqueza seja alheia ao cristianismo.

Resta a pergunta: seriam os ricos mais dignos de confiança que os pobres? O grande escritor católico-inglês, G.K. Chesterton, respondeu em seu livro “Ortodoxia”, fazendo alusão àquela passagem do evangelho acima, categoricamente que não.

 “Eu sei que o fabricante mais moderno tem andado muito ocupado na tentativa de produzir uma agulha extraordinariamente grande. Eu sei que os mais recentes biólogos têm andado ansiosos por descobrir um camelo muito pequeno. Mas se reduzirmos o camelo ao mínimo possível, ou se abrirmos o buraco da agulha ao máximo possível — se, em suma, supusermos que as palavras de Cristo tinham exatamente o significado mínimo que poderiam ter, suas palavras devem no mínimo significar o seguinte: que é provável que os ricos não sejam moralmente dignos de confiança.”.

Ouve-se, muitas vezes, em diversos lugares (como no cartaz do garoto), o equivocado argumento de que um rico não pode ser subornado. Ora, parafraseando Chesterton, pode se afirmar que, em verdade, diversos ricos (nem todos: ratifica-se à exaustão) já foram subornados, por isso são ricos. O genial autor britânico quis elucidar que essa isenção absoluta dos ricos vai de encontro ao cristianismo, pois “parte do dogma cristão que qualquer homem de qualquer posição social pode aceitar subornos”.

Assim, Chesterton sentencia: “é com certeza totalmente anticristão confiar nos ricos, considerar que os ricos são moralmente mais dignos de confiança que os pobres”.

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2 Comments

  1. Vitor Galvão.

    Exemplo mais claro e simplista de que uma grande maioria pensa que os ricos têm mais credibilidade está na fúria em que se observa quando um morador de rua rouba ou furta para comer. Pede-se justiça de imediato e, muitas vezes, se faz justiça com a próprias mãos ( vide exemplos recentes de linchamento). Não se vê, porém, a mesma fúria quanto aos casos de banqueiros que roubam milhões, juízes que desviam dinheiros e médicos que desviam milhões do sistema de saùde.

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