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História

Colombo e o mito da Terra plana

Cena do filme "1492: a conquista do paraíso". Colombo (Gerard Depardieu) e a laranja. Foto: Allstar/Cinetext/Paramount.

Cristóvão Colombo, com uma laranja sobre a mão, explica ao seu filho que “o mundo é redondo” (como se fosse algo extremamente revolucionário e desconhecido para as pessoas daquela época). Pouco tempo depois, o navegador genovês diz a um monge:  “Disseram-nos mentiras por tanto tempo. Disseram que isso (apontando para o globo terrestre) era reto como uma mesa. Que havia monstros na extremidade do mundo. ”

São cenas famosas de “1492 — a conquista do paraíso” (1992)”,   filme hollywoodiano que tem sido utilizado em aulas por professores secundaristas no Brasil e no mundo. Poucas pessoas percebem os erros crassos difundidos por películas como aquela, pois ouviram à exaustão as seguintes falsas informações: durante a idade média, acreditava-se que a terra fosse plana; a Igreja Católica negava a esfericidade e perseguia os seus defensores; e posteriormente, surgiu um heroico e rebelde inovador, Cristóvão Colombo, o qual conseguiu em 1492, ao revés de todo o pensamento atrasado de sua época, demonstrar que nosso planeta era redondo.

As assertivas acima fazem parte do que os historiadores chamam de “mito da terra plana”. A ideia do navegador italiano, o caminho alternativo às Índias (em direção ao oeste, através do Oceano Atlântico, para chegar ao leste), realmente apenas fazia sentido numa Terra esférica. Entretanto, os especialistas no tema, como os historiadores da ciência Ronald L. Numbers e David C. Lindberg, ensinam que praticamente todos os estudiosos durante a Idade Média (século V a XV) afirmavam a esfericidade do nosso planeta e conheciam sua circunferência.

Para elucidar essa questão, pode-se utilizar obras dos mais diversos estudiosos (James Hannam, Jefrrey Burton Russell, os saudosos Stephen Jay Gould Charles W. Jones, entre outros). Pela qualidade e por ter uma versão acessível em português (sob o selo da editora Gradiva), escolhi o livro “Galileu na prisão e outros mitos sobre religião e ciência”. Publicado pela Harvard University Press em 2009 e coordenado pelo renomado intelectual Ronald L. Numbers (agraciado com a medalha George Sarton – a mais prestigiosa honraria concedida a um historiador da ciência), a obra reúne 25 consagrados historiadores da ciência, cada qual rebatendo um mito sobre a relação entre religião e ciência. O capítulo “Mito 3. Os cristãos medievais ensinaram que a terra era plana” foi assinado por Lesley B. Cormark, Ph.D. e Presidenta da “Canadian Society for the History and Philosophy of Science” (sociedade canadense para a história e filosofia da ciência) e servirá como base para explanações a seguir.

Inicialmente, importante informar que o mito surge durante o século XIX. Neste período, prevalecia um forte anticatolicismo, perpetrado por acadêmicos americanos como Andrew Dickson White e John William Draper, interessados em pintar um quadro de eterno conflito entre religião e ciência. Alguns argumentavam que os gregos conheciam a esfericidade da terra (um fato, indubitavelmente) e esse conhecimento teria sido suprimido pelos clérigos medievais cristãos. Nesse ambiente, uma biografia romantizada sobre Colombo, redigida pelo americano Washington Irving (famoso pelos contos “Rip Van Winkle” e “Lenda do cavaleiro sem cabeça), apresenta ao mundo o fantasioso relato (versão que persiste até os dias atuais) de que fora aquele navegador o primeiro a provar que nosso planeta era redondo, e que a Igreja e os pensadores cristãos defendiam uma “Terra plana”. Ora, Colombo não poderia ter provado tal fato, pois este já era conhecido. Ele também não era um moderno rebelde, mas um bom católico que, assim como diversos membros do clero na idade média, tinha interesse em desvendar as obras de Deus na Natureza.

Desde a antiguidade, todos os principais estudiosos da Geografia, gregos (como Erastóstenes, século III a.C.; Aristóteles, 384-322 a.C.; e Ptolomeu) e romanos (Plínio, o Velho – 23-79 d.C.; Macróbio, século IV d.C.; e Pombônio Mela, século I d.C.), basearam suas obras num mundo redondo. A prova feita por Aristóteles da esfericidade da Terra (indicada pela alteração das posições das constelações quando nos deslocamos pela superfície da Terra) serviu como argumento para vários pensadores da Idade Média e do Renascimento. Outro grego, Erastóstenes, há quase dois mil e trezentos anos, conseguiu o incrível feito de calcular a aproximada circunferência da terra.

Mas os escritores medievais seguiam esses ensinamentos? Sim, mesmo nos primeiros momentos da Idade Média, eram raros os estudiosos não defensores da esfericidade da Terra. Não era diferente entre os doutores da Igreja Católica, como Santo Agostinho (354-430), São Jerônimo (morto em 420 — será utilizado “m.” nos seguintes) e São Ambrósio (m. 420) — todos possuíam a opinião de que o nosso planeta era redondo. Visão dissidente veio apenas de Lactâncio (início do século IV), mas este rejeitava qualquer escrito pagão.

Nas centenas de anos seguintes, nada mudou nesse sentido. Do século VI ao XIV, todos importantes pensadores medievais afirmavam que o mundo era um globo, como: o genial filósofo e frei dominicano, São Tomás de Aquino (m. 1274 — o mais influente teólogo da história da Igreja Católica); e um dos grandes percussores do método científico, o frei franciscano Roger Bacon (m. 1294). Destacavam-se com os mais influentes intelectuais nessa área: João de Sacrobosco (demonstrou que a terra era um globo em sua obra “De Sphera” — 1230, utilizada como manual básico nas Universidades — criadas pela Igreja Católica — ao longo da Idade Média); e Pierre d’Ailly (1350-1410), arcebispo de Cambrai (seu livro “Imago Mundi”, escrito em 1410, também foi extremamente popular — lido inclusive pelos primeiros exploradores como Colombo).

Todos esses ilustres e reverenciados católicos (muitos deles venerados como Santos) ajudam a demonstrar a falta de mérito na argumentação de que a Igreja defendia uma “Terra plana” e perseguia quem a rejeitasse.

Obras populares também apoiavam expressamente a ideia de uma “Terra redonda” como “As viagens” de Jean de Mandeville (um dos livros mais lidos na Europa entre os séculos XIV e XVI), a célebre “Divida Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321) e “The Franklin’s tale” de Chaucer (aprox. 1340-1400). Manderville, por exemplo, escreveu: “E digo assim com toda segurança que um homem poderia percorrer todo o mundo, tanto por cima como por baixo, e voltar ao seu próprio país […] E sempre encontraria homens, terras, cidades e vilas, como no seu próprio país”.

Apenas um autor medieval, Cosmas Indicopleustes (um monge bizantino do século VI), negava explicitamente a esfericidade do nosso planeta. Contudo, apenas se conhece um homem da Idade Média que tenha lido sua obra, Fócio de Constantinopla (m. 891), considerado o homem mais culto de sua era. A obra de Cosmas, por ausência de qualquer evidência positiva nesse sentido, não serve para defender que a Igreja Cristã suprimiu o conhecimento sobe a circularidade do globo terrestre; apenas demonstra uma abertura ao debate no ambiente acadêmico dos primeiros séculos da era medieval. Vale ainda destacar que o monge bizantino viveu nove séculos antes de 1492. Assim, não há indício de qualquer pensador ocidental à época de Colombo (ou mesmo nos recentes séculos anteriores) que defendesse uma Terra plana.

Enfim, sobre os estudiosos medievais, a Igreja e Colombo, assim leciona a Dra. Lesley Cormack:

Com as exceções de Lactâncio e Cosmas, todos os principais acadêmicos e muitos autores vernáculos interessados na forma física da Terra, desde a queda de Roma até à época de Colombo, formularam a teoria da esfericidade do planeta. Os acadêmicos poderiam estar mais preocupados com a salvação do que com a geografia, e os autores vernáculos podem ter demonstrados pouco interesse por questões filosóficas. Mas, com exceção de Cosmas, nenhum autor medieval negou a esfericidade da Terra — e a Igreja Católica nunca tomou posição sobre o tema.

Considerando este contexto, não fará sentido defender que Colombo demonstrou que o mundo era redondo — ou sequer que tenha tentado fazê-lo. No entanto, descrições populares continuam a fazer circular a ideia errônea de Colombo lutando contra os preconceituosos e ignorantes acadêmicos e clérigos de Salamanca, sede da principal universidade de Espanha, antes de conseguir persuadir a rainha Isabel a deixá-lo demonstrar a sua ideia.

A autora também explica que inexistia nos marinheiros, sob às ordens de Colombo, o medo de “cair do extremo da Terra abaixo”.  Segundo o próprio diário do genovês, aqueles tinham apenas duas queixas: preocupação que a viagem estava durando mais do que o navegador prometera; e o medo de não conseguirem realizar a viagem de regresso ao leste, em razão do vento parecer soprar de forma constante em direção ao oeste.

Embora a esfericidade do nosso planeta não tenha sido discutida, existiram realmente controvérsias entre Colombo e os sábios de Salamanca (os quais conheciam os debates sobre o tamanho da Terra, e a possibilidade da existência de habitantes em outras partes do mundo e navegar através do Equador). Estes o questionaram sobre sua afirmação de possuir conhecimento superior ao dos antigos, e argumentavam que a Terra esférica era maior do que Colombo pensava (realmente, o genovês incorretamente acreditava que nosso planeta fosse consideravelmente menor do que é) e que sua viagem seria demasiada longa, duvidando da sua capacidade de levar seu projeto avante (os sábios tinham boas razões para permanecer céticos, pois o navegador italiano talvez tivesse fracassado se não houvesse o desconhecido continente americano no meio do caminho).

Resta informar que, ao saudar Colombo em seu prefácio da obra “Décadas do Novo Mundo” (1511), Pedro Mártir mencionou os feitos do genovês: demonstrou que o Equador era transponível e que havia de fato povos e terra na parte do globo que antes se julgava totalmente coberta por águas. Logicamente, nenhuma palavra sobre a fantasiosa versão de que Colombo teria demonstrado a esfericidade do nosso planeta.

Portanto, como bem explana a Dra. Cormack, Colombo não provou que a Terra era redonda, “simplesmente tropeçou num continente que por acaso lhe apareceu pela frente”.

A lenda criada por Washington Irving, apesar de morta no meio acadêmico, ainda demonstra força em ambientes populares. Muitos filmes e seriados têm função essencial na difusão do mito, como por exemplo:

1. Jornada nas Estrelas V. A última fronteira (1989). No filme, o personagem alienígena “Sybok” diz a um terráqueo: “As pessoas do seu mundo acreditavam que o mundo era plano. Colombo provou que era redonda”;

2. Stargate Atlantis (2004). No seriado, o “Capitão Griffin” diz: “Colombo era Espanhol — ele descobriu que a Terra era redonda”;

3. Homens de Preto (1997). Nesse popular filme, o Agente K (Tommy Lee Jones) aduz ao Agente J (Will Smith): “1500 anos atrás, todos sabiam que a Terra era o centro do Universo. 500 anos atrás, todo mundo sabia que a Terra era plana. E 15 minutos atrás, você soube que os humanos estavam sozinhos nesse planeta”.

Possível entender os erros históricos cometidos pela indústria do entretenimento, pois prioriza a diversão e apresenta uma versão romantizada da História. Como se viu nesse texto, alguns filmes como “1492” chegaram inclusive às salas de aula. Mas, atualmente, será que os professores brasileiros e americanos ainda propagam esse mito aos estudantes secundaristas?

Quanto aos EUA, segundo a Dra. Cormack, ainda existem autores de manuais escolares americanos que repetem a lenda, como por exemplo: Mounir A. Farah e Andrea Berens Karls, World History: The Human Experience (Lake Forest, Ill.: Glencoe/McGraw- Hill, 1999); e Charles R. Coble et al., Earth Science (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall, 1992)

Para tentar responder essa pergunta em relação ao Brasil, fiz uma rápida pesquisa no “youtube” e assisti a algumas aulas de docentes atuantes e populares. O resultado foi assustador: nenhum professor explicou que à época de Colombo, o homem há muito tempo já sabia da esfericidade terra, e, pior ainda, alguns transmitiram aos seus alunos a lenda como história. Seguem três nesse sentido (decidi preservar suas identidades), todos com milhares de visualizações em seus vídeos:

1. Um docente passa a errônea ideia de que Colombo acreditava na esfericidade da Terra (além de crer que “não iria cair num abismo profundo do mar tenebroso”) por possuir “um pensamento renascentista”;

2. Se o professor acima propaga o mito de forma comedida, outro vai além e, numa completa deturpação da história, diz que a igreja Católica defendia uma espécie de Terra “quadrada” (“como a bola do “Quico”) e que Colombo provou, com “suas teorias meio malucos para a época”, que “a terra é redonda”;

3. Um terceiro docente não fica atrás e faz uma salada surreal entre heliocentrismo e esfericidade da Terra, ao asseverar que alguns teóricos como Copérnico e Galileu “afirmavam sobre a possibilidade de o Planeta Terra ser redondo, quando a maioria das pessoas achava que isso era uma bobagem”. Posteriormente, diz que havia um navegador, Colombo, que “acredita naquela “possibilidade”. Pasmem! Em 1492, ano de chegada de Colombo à América, Copérnico era apenas um jovem iniciando seus estudos na Universidade de Cracóvia, e Galileu (1564–1642) não havia nem nascido!

Infelizmente, muitos jovens brasileiros e americanos continuam aprendendo essas informações comprovadamente falsas, totalmente refutadas pelos historiadores especializados. Tudo isso ocorre em “aulas de história”. Um quadro mais tenebroso que qualquer oceano desconhecido ou produção hollywoodiana.

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5 Comments

  1. Gabriel

    Excelente texto. Eu assisti a esse filme na época da escola (creio que na 6 série) e aprendi errado. Obrigado por disponibilizar a correção. Continue escrevendo. Você leva jeito. Um abraço, meu amigo!

  2. David

    Você está sendo muito extremo, realmente Colombo não descobriu que a Terra era Redonda, mas foi o primeiro a chegar perto de provar na pratica que a Terra era Redonda e teria conseguido se não houvesse o continente Americano e tivesse suprimentos suficientes para viagem (Ou então desviasse o continente para prosseguir). Mesmo as pessoas tendo conhecimento que a Terra era redonda como vc diz em seu artigo, ninguém podia afirmar com toda convicção e ter certeza absoluta, uma coisa e ter conhecimento outra é ter certeza (vide teoria do Big Bang). Foi um ato de muito coragem de Colombo, pois se ele não estivesse totalmente convencido que a terra era redonda, ele não se arriscaria nesta jornada ao desconhecido, então a convicção dele em saber que a Terra era redonda era incomum. E isto foi revolucionário sim, alguém que buscou provar na prática que a terra era redonda….

  3. O Mito voltou! A Terra é Plana.

  4. Dilnei

    Se alguém provar que a terra é redonda eu pago pra ver, não me venham com material da Nasa pois são todos fakes. Em resumo: A terra é plana, os judeus é que vão se catar.

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