Há consenso entre os biólogos quanto à veracidade da teoria da evolução das espécies. A mesma situação se repete entre os historiadores em relação à existência de Jesus como personagem histórico (não trato aqui de aspectos religiosos).

Entretanto, alguns fundamentalistas religiosos, desconsiderando a comunidade científica, rejeitam a evolução das espécies, pois interpretam literalmente o Gêneses (história bíblica da criação). Assim, são conhecidos como criacionistas.

Por outro lado, alguns ateus radicais (geralmente antiteístas militantes), ignorando a posição consensual dos historiadores, afirmam que Jesus jamais existiu. Uma vez que adeptos da “Teoria do Mito de Jesus”, são denominados miticistas.

Ainda que certamente existam claras diferenças entre evidências históricas e científicas, não deixa de ser curioso perceber como extremos opostos se comportam de maneira tão parecida. Pensando nisso, resolvi criar os diálogos abaixo para melhor retratar esse cenário:

DOIS LADOS DA MESMA MOEDA; A IGNORÂNCIA TEIMOSA DOS RADICAIS

I –

— Preste atenção, Lucas. — Leonardo tentava, novamente, convencer seu amigo criacionista a aceitar a evolução das espécies.

— Para quê? Você vai falar a mesma coisa de sempre.

— Esqueça as outras vezes. Vamos fingir que essa é a primeira vez, por favor.

— Ah, tá bom. Comece — disse Lucas entediado.

— Obrigado. Primeiro, você tem que saber que praticamente todos estudiosos especializados nas áreas que envolvem esse tema defendem a veracidade da evolução das espécies… — Leonardo falava ao ser interrompido por Lucas.

— Espera aí. Eu já vi várias matérias em jornais e revistas com estudiosos contrários à evolução. Tem até um documentário sobre isso.

— Lucas, não são estudiosos da área; praticamente leigos sem o devido treinamento e/ou conhecimento sobre a matéria.

— Mas tem professores universitários.

— Profissionais de outras áreas. Não há nenhum professor universitário titular em Biologia em todo o mundo ocidental que negue a evolução das espécies e adote o criacionismo.

— Isso não diz muita coisa. Como provavelmente são todos ateus, devem ser parciais. Claro que defenderão a evolução.

— Não são todos ateus, Lucas. Há estudiosos católicos, protestantes, judeus, ateus, agnósticos, e todos tratam a evolução como fato científico.

— Vendidos então. Pense uma coisa: eles têm que defender, por que isso é seu ganha pão. Se admitissem ser uma farsa, estariam desempregados e sem nenhuma fama ou relevância.

— Ao contrário, Lucas. Pense você agora numa coisa: quem provasse essa suposta falsidade da evolução faria uma revolução e seria considerado um gênio na área. Quem não gostaria de ter essa “fama”?

— Não me convence. Talvez não deem oportunidades a outros com medo de perder espaço. Tudo bem, vamos admitir que realmente haja esse consenso e boa-fé entre os estudiosos. Isso não prova em nada a evolução. Todos podem estar errados. Concorda?

— Concordo. Mas um consenso entre experts qualificados constitui uma espécie de ônus da prova inicial, pois seria mais improvável que um argumento incorreto convencesse cem especialistas do que apenas um; e seria mais improvável ainda que convencesse um expert a cem especialistas.

— Não quando tem essa parcialidade entre chamados experts. De qualquer jeito, nada disso configura prova. Onde estão?

— Bem, temos inúmeras provas. Por exemplo, o registro fóssil, a coluna geológica, a qual mostra a sucessão na formação rochosa que em milhões de anos compôs a crosta da terra, e que exibe os fósseis numa sequência progressiva, demonstrando uma transição gradual, da simples à mais complexa forma de vida. Há a homologia, ou seja, semelhanças em forma e função na anatomia de espécies diversas. Tem o código genético universal. Há também… — Leonardo explicava enquanto foi interrompido por Lucas.

— Não acredito em nada disso. Interpretações pessoais e parciais com o objetivo de chegar a uma conclusão pré-determinada. Quem garante que isso é verdade? Cadê a prova?

— Você me interrompeu. Eu posso continuar?

— Não, faça o seguinte: mostre aí um macaco ou um cavalo se transformando num ser humano.

— Não é assim que a evolução funciona, Lucas. O homem não “veio do macaco”, ambos apenas possuem ancestrais comuns. Os processos evolutivos podem demorar até milhões de anos. Eu não preciso mostrar isso acontecendo agora para provar a evolução.

— Bem conveniente. Então tudo isso, bem como o nome diz, é “apenas uma teoria”.

— Uma teoria científica, não “apenas uma teoria” em sentido leigo. Como expliquei, a evolução é um fato científico, pois há evidências que a sustentam. Ela é a melhor explicação existente para o desenvolvimento da vida.

— A melhor, mas não necessariamente a verdade. Quando você chama de “fato”, impossibilita qualquer discussão. Infelizmente, já vi que você é fanático, tem sua cabeça pronta. Assim fica difícil.

— Você entendeu isso depois de tudo o que disse? Se quiser, eu explico mais detalhadamente — Leonardo disse pacientemente.

— Você não me convenceu. Você tem sua opinião, eu tenho a minha. Concordemos em discordar.

— Ok, Lucas, ok. — Leonardo desistira.

— Não se preocupe. Daqui a alguns anos, você vai pensar “não é que o Lucas tinha razão? ”.

— Duvido muito, amigo, duvido muito…

II-

— Preste atenção, Lucas. — Leonardo tentava, novamente, convencer seu amigo “miticista”, Lucas, a aceitar que Jesus realmente existiu.

— Para quê? Você vai falar a mesma coisa de sempre.

— Esqueça as outras vezes. Vamos fingir que essa é a primeira vez, por favor.

— Ah, tá bom. Comece — disse Lucas entediado.

— Obrigado. Primeiro, você tem que saber que praticamente todos estudiosos especializados nas áreas que envolvem esse tema defendem existência de Jesus como personagem histórico… — Leonardo falava ao ser interrompido por Lucas.

— Espera aí. Eu já vi várias matérias em jornais e revistas com estudiosos contrários à existência. Tem até um documentário sobre isso.

— Lucas, não são estudiosos da área; praticamente leigos sem o devido treinamento e/ou conhecimento sobre a matéria.

— Mas tem professores universitários.

— Profissionais de outras áreas. Não há nenhum professor universitário em todo o mundo ocidental, titular nas cadeiras que tratam diretamente sobe o tema, que negue a existência de Jesus.

— Isso não diz muita coisa. Como provavelmente são todos cristãos, devem ser parciais. Claro que defenderão a existência.

— Não são todos cristãos, Lucas. Há estudiosos católicos, protestantes, judeus, ateus, agnósticos, e todos defendem a existência.

— Vendidos então. Pense uma coisa: eles têm que defender, por que isso é seu ganha pão. Se admitissem ser uma farsa, estariam desempregados e sem nenhuma fama ou relevância.

— Ao contrário, Lucas. Pense você agora numa coisa: quem provasse essa suposta inexistência, faria uma revolução e seria considerado um gênio na área. Quem não gostaria de ter essa “fama”?

— Não me convence. Talvez não deem oportunidades a outros com medo de perder espaço. Tudo bem, vamos admitir que realmente haja esse consenso e boa-fé entre os estudiosos. Isso não prova em nada a existência. Todos podem estar errados. Concorda?

— Concordo. Mas um consenso entre experts qualificados constitui uma espécie de ônus da prova inicial, pois seria mais improvável que um argumento incorreto convencesse cem especialistas do que apenas um; e seria mais improvável ainda que convencesse um expert a cem especialistas.

— Não quando tem essa parcialidade entre chamados experts. De qualquer jeito, nada disso configura prova. Onde estão?

— Bem, há inúmeras provas, como as epístolas de Paulo (diversas quase que universalmente considerados autênticas), o qual conheceu pessoalmente os seguidores de Jesus como Pedro e Tiago, irmão de Jesus.  Os relatos de Paulo são condizentes com a época e seus acontecimentos.  Temos também os evangelhos, pois são várias as informações que passam por critérios importantes como o desembaraço (por exemplo, os judeus jamais inventariam um Messias crucificado) e a atestação múltipla. Há ainda fontes não cristãs: referências a Jesus podem ser encontradas nos escritos do historiador romano Tácito e do historiador judeu Flávio Josefo. Temos também… — Leonardo explicava enquanto foi interrompido por Lucas.

— Não acredito em nada disso. Interpretações pessoais e parciais com o objetivo de chegar a uma conclusão pré-determinada. Quem garante que isso é verdade? Cadê a prova?

— Você me interrompeu. Eu posso continuar?

— Não, faça o seguinte: mostre aí os ossos de Jesus ou o texto original da sentença que o condenou.

— Não é assim que o estudo da história funciona, Lucas. Deve-se analisar o conjunto de evidências. Eu não preciso dos ossos para provar a existência de Jesus.

— Bem conveniente. Então tudo isso não passa de uma teoria, apenas relatos.

— Relatos históricos, não “apenas relatos” num sentido leigo. Como expliquei, a existência de Jesus é um fato histórico, pois há evidências que a sustentam. Ela é a melhor explicação existente sobre aquele homem e período.

— A melhor, mas não necessariamente a verdade. Quando você chama de “fato”, impossibilita qualquer discussão. Infelizmente, já vi que você é fanático, tem sua cabeça pronta. Assim fica difícil.

—Você entendeu isso depois de tudo o que disse? Se quiser, eu explico mais detalhadamente — Leonardo disse pacientemente.

— Você não me convenceu. Você tem sua opinião, eu tenho a minha. Concordemos em discordar.

— Ok, Lucas, ok. — Leonardo desistira.

— Não se preocupe. Daqui a alguns anos, você vai pensar “não é que o Lucas tinha razão? ”.

— Duvido muito, amigo, duvido muito…

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