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Futebol

Pelé era um autêntico camisa 10: a posição do Rei em campo e as táticas da era de ouro do futebol brasileiro

Pelé, por Lemyr Martins. Retirada de:
http://veja.abril.com.br/esporte/pele-tirou-um-dos-rins-quando-jogava-no-cosmos/

Pelé, por Lemyr Martins. Retirada de: http://veja.abril.com.br/esporte/pele-tirou-um-dos-rins-quando-jogava-no-cosmos/

Para entender o posicionamento de Pelé em campo, imprescindível explicar a formação tática básica do futebol brasileiro durante o seu reinado. Quase todas as esquipes nacionais atuavam num 4-2-4, assim organizado: goleiro; lateral direito, quarto-zagueiro, zagueiro central e lateral esquerdo; médio-volante e meia-armador (ou meia-direita); ponta-direita, centroavante, ponta de lança (ou meia-esquerda) e ponta-esquerda (sobre a origem dos termos quarto-zagueiro, meia-direita, entre outros, recomendo a leitura de artigo assinado pelo experiente jornalista Alberto Helena Júnior).

A atribuição mais tradicional dos números do meio de campo e ataque era a seguinte: 5, volante; 8, meia-armador; 7, ponta-direita; 9, centroavante; 10, ponta de lança; e 11, ponta-esquerda. Quanto ao número 10, importante informar que apenas virou sinônimo do ponta de lança após Pelé usá-lo na Copa de 1958 (os números do Brasil naquele torneio foram definidos por sorteio).

O Botafogo, campeão brasileiro em 1968, e o Santos, campeão de tudo em 1962, seguiam à risca aquela numeração (no entanto, alguns times, como o Cruzeiro, invertiam os números 8 e 10: Tostão, ponta de lança, jogava com a 8; Dirceu Lopes, meia-armador, usava a 10):

botafogosantos

Nesta formação clássica, o principal organizador do time era o meia-armador (responsável pela armação de jogadas; normalmente, fazia poucos gols). Entretanto, o ponta-de-lança (frequentemente, o artilheiro do time), além de ir ao ataque para tabelar com o centroavante, exercia uma dupla função, porque também recuava para organizar o jogo ao lado do meia-armador, fazendo a famosa dupla “8 e 10” no meio de campo

Ilustrando o que foi relatado acima, o Santos de 1962 (belo trabalho feito pelo excelente site “Imortais do futebol”; eu, pessoalmente, acrescentaria uma seta para trás em Pelé, indicando o seu eventual recuo em alguns momentos da partida):

santos-1962

Pode-se perceber que, durante boa parte da partida, o ponta de lança jogava atrás de três atacantes (dois pontas e um centroavante), sobretudo quando voltava à armação. Quando subia ao ataque, fazia dupla com o jogador mais avançado, o centroavante.

Poucas pessoas sabem que essa divisão de posições permaneceu majoritária no futebol brasileiro até o final dos anos 80. Em 1988, ela ainda era utilizada para a premiação da “Bola de Prata” da Revista Placar (percebam que o grande Zico figura na lista como ponta de lança; atenção, não é a classificação final do ano):

boladeprata88n962data11111988

Revista Placar, n. 962, 11/11/1988.

Apenas em 1989 (imagem abaixo), a publicação passou a adotar sua seleção com dois “Meias” (unindo meia-armador e ponta de lança na mesma posição; por exemplo, Cuca e Toninho, pontas de lança em 88, figuram como meias em 89) e três atacantes (pontas e centroavantes juntos na mesma categoria). A partir de 1996, um atacante deu lugar a outro volante na seleção da revista — os dois atacantes das equipes eram, geralmente, um segundo-atacante e um centroavante.

boladeprata1989n1007data29091989

Revista Placar, n. 1007, 29/09/1989.

SELEÇÕES DE 1958 E 1970 

Aquela base tática, do Santos e Botafogo, foi mantida durante os anos 60, 70 e 80, mas não deixaram de existir mudanças, inovações e adaptações, no período, sobretudo na seleção brasileira em Copas.

Em 1958, Zagallo, ponta-esquerda, foi recuado para o meio, e o Brasil atuou num 4-3-3.

Em 1970, como explica o competente jornalista do UOL, André Rocha:

A seleção dos ‘camisas dez’, da magia e eleita a melhor de todos os tempos não atropelou apenas no talento. Antes vinha a boa execução do 4-3-3 que, visto hoje, era um perfeito 4-2-3-1 com apenas Tostão na frente sem a bola e muita mobilidade. Também velocidade nos contragolpes, matando a maioria dos jogos no segundo tempo pela ótima preparação física.

Numa conversa com André Rocha, Zagallo, técnico do Brasil em 70, expôs outra característica daquele esquadrão inesquecível: “Nos defendíamos no 4-5-1. Só o Tostão ficava na frente. Mas até ele voltava, se fosse preciso“.

Costuma-se afirmar que a seleção de 70 jogava com cinco camisas “10”.  Em suas equipes, Rivellino, Gérson (no São Paulo, à época), Jairzinho e Pelé, atuavam com aquele número. Contudo, em relação ao que realmente significava ser um “10”, o Brasil possuía quatro (Gérson era meia-armador): Rivellino (jogava também na função de meia-armador, porém ele venceu sua única bola de prata como ponta de lança), Tostão (embora vestisse a 8 no Cruzeiro), Pelé, e Jairzinho (“Eu era um ponta de lança, um camisa 10”; Rogério era o ponta-direita do Botafogo).

POSIÇÃO DE PELÉ EM CAMPO

Alguns jornalistas e fãs de futebol, quando falam num “autêntico camisa 10”, costumam mencionar Maradona, Zidane, Zico, Platini, entre outros. Poucos classificam Pelé dessa forma. Todavia, a partir das informações aqui prestadas (reforçadas posteriormente), acredito ser possível afirmar que Pelé era um “autêntico camisa 10”, como foram Zico, Platini e Maradona. O leitor mais atento percebe que não citei Zidane. Sim, para mim, Zizou, na tradição brasileira, se assemelhava mais ao antigo camisa 8, o meia-armador. Vejamos: principal organizador de suas equipes, o francês não costumava entrar muito na área adversária e fazia poucos gols (média de 0,19 por jogo na carreira). Por outro lado, jogadores do estilo de Zico, Pelé, Platini e Maradona, ajudavam na armação, mas também eram excepcionais artilheiros com médias bastante superiores a Zizou em jogos oficiais: Platini e Maradona com pouco mais de 0,5 por partida; Zico, aproximadamente 0,7; e Pelé, 0,93. Por isso que considero um equívoco falar num “autêntico camisa 10”,  como alguém para ser “o cérebro do time” (principal armador das jogadas), pois essa sempre foi a característica do “autêntico camisa 8”.

Flamengo-tatica-1981-Zico

Flamengo de 1981, por André Rocha. Notem como se mantém (com algumas variações) a base tática tradicional  com: volante (Andrade), meia-armador (Adílio), ponta de lança (Zico), ponta-direita (Tita), centroavante (Nunes) e ponta-esquerda (Lico).

Ademais, outras evidências indicam que Pelé jogava na mesma posição de Zico e Maradona. Ambos craques dos anos 80 eram chamados de “ponta de lança” no Brasil. Em relação a Zico, revejam a imagem da bola de prata de 1988 e o esquema tático do Flamengo acima. Quanto a Maradona, César Luis Menotti, técnico da Argentina campeã da Copa do Mundo em 1978, disse as seguintes palavras, relatadas pela “Revista Placar” no final daquele ano (imagem abaixo —  na matéria, o jovem Diego é chamado de ponta de lança): “No atual estágio do futebol mundial, Maradona é Pelé. Há uma diferença na estrutura física, mas muita semelhança no espaço de terreno que joga, nos lançamentos que faz. E, note bem, trata-se de um goleador”.

Maradona-novo-Pelé

Revista Placar, n. 449, 1/12/1978

Em suas equipes, Maradona e Zico atuaram sempre avançados, atrás apenas de um ou dois atacantes. O argentino, por exemplo, na Copa de 1986, ponto mais alto de sua carreira, apenas tinha Valdano à sua frente; no Napoli, eram dois atacantes, Careca e Carnevale. Outrossim, Zico e Maradona eram capazes de exercer a  função de segundo-atacante.

Vejam abaixo como eram parecidas as posições dos três craques em campo

Relevante também, para reforçar a comparação de Pelé com Zico e Maradona, o testemunho do lendário Tostão, companheiro do Rei em 70 e, atualmente, brilhante colunista:

Na terminologia antiga, Zico era um ponta-de-lança, atacante que recuava até o meio-campo para receber a bola, driblava, tabelava, colocava o companheiro na frente do goleiro e fazia gols espetaculares, de todos os tipos. Era o camisa 10. O Rei Pelé e os super-craques Maradona, Di Stefano, Cruyff e Platini também atuavam nesta posição.

O ponta-de-lança parecia com o atual armador ou meia ofensivo, o número um, que faz a ligação entre o meio-campo e ataque, como Kaká, Alex, Zidane e outros. O ponta-de-lança era mais atacante do que armador. O meia atual é mais armador do que atacante. Rivaldo e Kaká têm mais características de ponta-de-lança, atacante. Zidane, Alex e Ronaldinho Gaúcho são mais organizadores, armadores.

Ora, Tostão denomina Pelé, Maradona e Zico como pontas de lança. Embora tenha utilizado a palavra “atacante” para descrever a posição, fica claro, por sua explicação, que aqueles jogadores possuíam funções semelhantes aos meias-atacantes recentes como Kaká e Rivaldo.

Além do mais, importante ler as palavras de Jairzinho, furacão do mundial no México: “Eu era um ponta de lança, um camisa 10 (…) O Botafogo, na época, tinha o Roberto Miranda como centroavante. O Pelé, no Santos, tinha o Coutinho. No Cruzeiro, o Evaldo. E assim por diante. Nenhum de nós era atacante de fato”.

Pois bem, vimos que Pelé era um ponta de lança, com funções semelhantes a Zico e Maradona. Todos esses três grandes futebolistas armavam bastantes jogadas e anotavam muitos gols. Logo, considero possível concluir que a nomenclatura contemporânea mais apropriada para Pelé corresponde a de meia-atacante, um jogador ativo no meio e ataque, como foram recentemente Kaká e Rivaldo. Corroborando esses argumentos, essencial informar que o próprio Pelé se denominou em sua autobiografia como “um meia que atacava” (Rio de Janeiro, Sextante, 2006,  página 42), e falou, em entrevista, a respeito de sua semelhança com Kaká:

Cristiano Ronaldo e Kaká vão dar certo jogando juntos. Eles têm funções diferentes e podem ser aproveitados na mesma equipe. O Ronaldo é um jogador mais de frente, de explosão. Já o Kaká vem de trás. É igual a Pelé e Tostão. Pelé seria o Kaká.

Igualmente nessa perspectiva, Cláudio Adão, ótimo centroavante nos anos 70 e 80, companheiro de Pelé no início dos anos 70, recentemente, explicou, em entrevista na ESPN Brasil, por que teve que mudar de posição no início de sua carreira (adicionei esta citação em 19/07/2016):

Não, quando eu comecei na divisão de base, eu era meia. Mas quando eu fui subindo, o próprio Sr. Macia, que é o Pepe, falou: ‘Ó, vamos fugindo pra centroavante, porque se subir, lá não vai jogar’. Porque tinha ‘o cara’ (Pelé). Aí eu tive que me adaptar, como centroavante, jogar de costas pra o gol.

Pelé não pode ser considerado um atacante puro, pois, ainda que entrasse constantemente na grande área adversária para finalizar, recuava com maior frequência do que os grandes atletas desta posição nos tempos atuais (Messi, por exemplo, diferentemente de Pelé, já exerceu inclusive a função de atacante mais avançado de sua equipe, “o falso 9”).  Nesse sentido, observe o mapa abaixo feito pelo jornal francês L’Equipe, demonstrando onde Pelé tocou na bola durante a final da copa de 70:

Pele-final-70

Entretanto, várias seleções mundiais de todos os tempos, elaboradas por publicações diversas, costumam ter Pelé como atacante, ou, pasmem, centroavante. Não era assim durante sua carreira, como se vê nas seleções anuais dos anos 60, escaladas à época pelo jornalista inglês Eric Batty, na renomada “World Soccer Magazine”. Seguem 1962 e 1966, respectivamente, como exemplos (imagens retiradas do blog  “Beyond the Last Man”):

1962-XI-WorldSoccer 1966-XI-WorldSoccer

Batty, estranhamente, escolheu a superada formação 2-3-5, na qual, entre os “cinco atacantes”, dois exerciam funções próximas as dos meias contemporâneos (jogando atrás dos três atacantes, como leciona Alberto Helena).  Onde Pelé foi escalado? Justamente na posição que hoje corresponderia a de meia-atacante, atrás de três atacantes. Contraditoriamente, em 2013, a World Soccer, ao realizar uma eleição entre jornalistas de todo o planeta para escolher a seleção mundial de todos os tempos, demonstrou desconhecer sua própria história, porque colocou Pelé na mesma seção de centroavantes como Romário, Ronaldo, Van Basten e Gerd Müller. Muitos jornalistas cometeram o pecado de escalar Pelé como atacante mais avançado em seus “dream teams”.  Por outro lado, o site da Globo, corretamente, colocou Pelé entre os meias (junto a nomes como Zico, Kaká, Rivaldo e Ronaldinho) na eleição popular online da “Seleção brasileira de todos os tempos”; o craque santista foi o jogador mais lembrado pelos internautas com mais de 306 mil votos.

Pelé-Zico-Ronaldinho-Kaka-Rivellino

Caricaturas reunidas por mim numa única imagem,  retiradas da área “ESTATÍSTICAS DE ESCALAÇÃO” no site da Globo.

Ainda resta uma dúvida: qual função Pelé exerceria nos esquemas táticos mais utilizados atualmente?

O Rei definitivamente não seria um meia puro, como Iniesta, Ozil e Fabregas, jogadores semelhantes aos meias-armadores (camisa 8) do passado, principais organizadores e pouco goleadores. Em sua posição original, Pelé poderia atuar num 4-2-3-1 como um dos três meias (preferencialmente, o mais centralizado) ou como único meia-atacante do time (atrás de dois atacantes) num 4-3-1-2. Ainda que não ideal, ele também seria eficaz jogando na função de segundo atacante (em alguns tipos de 4-4-2 ou 3-5-2), ou até mesmo como um atacante de lado num 4-3-3 (não um ponta, mas alguém que iria muito ao centro de campo para participar da armação de jogadas, como Messi, recentemente, no Barcelona).

Portanto, em resumo, concluo que Pelé foi um meia-atacante, autêntico camisa 10.


BÔNUS:

Recomendo esse excelente vídeo com 100 golaços do Rei, editado pelo canal do youtube, “Futebol Nacional”:

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2 Comments

  1. Gabriel de Araújo Dias

    Meu amigo, parabéns pelo texto! Você escreve muito bem! Siga adiante, pois você leva muito jeito para a coisa. Já pensou em ser escritor?
    Um abraço!

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