{"id":2799,"date":"2025-11-23T21:22:31","date_gmt":"2025-11-24T00:22:31","guid":{"rendered":"https:\/\/otaviopinto.com\/?p=2799"},"modified":"2025-11-24T22:19:42","modified_gmt":"2025-11-25T01:19:42","slug":"o-credo-de-dostoievski","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/2025\/11\/23\/o-credo-de-dostoievski\/","title":{"rendered":"O credo de Dostoi\u00e9vski"},"content":{"rendered":"<div style=\"padding-bottom:20px; padding-top:10px;\" class=\"hupso-share-buttons\"><!-- Hupso Share Buttons - https:\/\/www.hupso.com\/share\/ --><a class=\"hupso_counters\" href=\"https:\/\/www.hupso.com\/share\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/buttons\/lang\/pt\/share-small.png\" style=\"border:0px; padding-top:2px; float:left;\" alt=\"Share Button\"\/><\/a><script type=\"text\/javascript\">var hupso_services_c=new Array(\"twitter\",\"facebook_like\",\"facebook_send\",\"pinterest\",\"email\",\"print\",\"linkedin\");var hupso_counters_lang = \"pt_BR\";var hupso_image_folder_url = \"\";var hupso_twitter_via=\"blogdootavio\";var hupso_url_c=\"\";var hupso_title_c=\"O%20credo%20de%20Dostoi%C3%A9vski\";<\/script><script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/js\/counters.js\"><\/script><!-- Hupso Share Buttons --><\/div><p style=\"text-align: justify;\">Deparei-me na internet com um brilhante e tocante artigo sobre a f\u00e9 (e a d\u00favida) em Dostoi\u00e9vski, publicado na Revista &#8220;First Things&#8221;, intitulado &#8220;<a href=\"https:\/\/firstthings.com\/dostoevskys-credo\/\">Dostoevsky&#8217;s Credo<\/a>&#8221; (O Credo de Dostoi\u00e9vski), escrito pelo c\u00e9lebre\u00a0<a href=\"https:\/\/slavic.northwestern.edu\/people\/faculty\/morson-gary-saul.html\">Gary Saul Morson, Professor de Artes e Humanidades, e L\u00ednguas Esl\u00e1vicas e e Literatura da Universidade<\/a>. Sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o inclui os seus dois autores favoritos: Tolst\u00f3i e Dostoi\u00e9vski. Ademais, venceu os pr\u00eamios &#8220;Livro do Ano&#8221; da &#8220;American Comparative Literature Association&#8221; (Associa\u00e7\u00e3o Americana de Literatura Comparada) e da &#8220;American Association of Teachers of Slavic and East European Languages&#8221; (Associa\u00e7\u00e3o Americana de Professores de L\u00ednguas Esl\u00e1vicas e do Leste Europeu), e tamb\u00e9m \u00e9 membro da American Academy of Arts and Sciences (Academia Americana de Artes e Ci\u00eancias).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de ler o texto, conclu\u00ed facilmente que os leitores brasileiros (ou outros que dominam o portugu\u00eas, mas n\u00e3o o ingl\u00eas) merecem conhec\u00ea-lo. Pois bem, sob autoriza\u00e7\u00e3o expressa do Professor Morson, traduzi o bel\u00edssimo texto, que analisa a quest\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 em Dostoi\u00e9vski (que a compreendia como uma busca, um processo), principalmente em sua obra &#8220;Os Irm\u00e3os Karam\u00e1zov&#8221; (em vez de traduzir as cita\u00e7\u00f5es do ingl\u00eas, utilizei <a href=\"https:\/\/www.editora34.com.br\/detalhe.asp?id=452&amp;srsltid=AfmBOop2PCZj1zYtQUvh8QUMw2jp-zXubKB5xnyiaIM9Z5Lz4C5H49OX\">a excelente vers\u00e3o em portugu\u00eas publicada pela Editora 34<\/a>), al\u00e9m de outros de seus escritos.<\/p>\n<p>Segue abaixo a tradu\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>O CREDO DE DOSTOI\u00c9VSKI<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que significa acreditar em algo? \u00c9 poss\u00edvel que uma pessoa professe uma ideia sinceramente, por\u00e9m descubra que ele nunca realmente acreditara nela? Se as a\u00e7\u00f5es de um homem contradizem suas cren\u00e7as, ele \u00e9 necessariamente um hip\u00f3crita, ou podem ser sinceras ambas a\u00e7\u00f5es e cren\u00e7as? Qual, naquele caso, ele realmente acredita? Como funciona a auto engana\u00e7\u00e3o? Se um homem entende uma ideia como falsa, como pode mudar para acredit\u00e1-la?\u00a0 Pode for\u00e7ar-se a acreditar no que ele duvida?\u00a0 Essas e muitas quest\u00f5es assombram a tradi\u00e7\u00e3o russa. Exploradas pelos grandes pensadores e romancistas, resultaram em reflex\u00f5es sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, que s\u00e3o algumas das grandes d\u00e1divas da literatura russa ao mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses questionamentos acontecem com os personagens fict\u00edcios de Dostoi\u00e9vski. Mas ele tamb\u00e9m os dirigiu em sua pr\u00f3pria agonizante busca pela f\u00e9. Sua f\u00e9 foi exatamente esta: uma busca pela f\u00e9, um processo. Em qual sentido?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Evangelho de Marcos, o pai de um garoto, possu\u00eddo por um esp\u00edrito maligno, implora sua cura para Jesus. Os disc\u00edpulos j\u00e1 haviam tentado e falhado. Quando Jesus pergunta por quanto tempo a crian\u00e7a sofria, o pai responde que, desde a inf\u00e2ncia, o esp\u00edrito possuidor do menino tentava destru\u00ed-lo ao arremess\u00e1-lo ao fogo ou \u00e0s \u00e1guas. \u201cSe tu, por\u00e9m, podes alguma coisa\u201d, ele suplicou, \u201cajuda-nos, compadece-te de n\u00f3s!\u201d. Quando Jesus responde que \u201ctudo \u00e9 poss\u00edvel ao que cr\u00ea\u201d, o pai replica em l\u00e1grimas: \u201cCreio! Vem em socorro \u00e0 minha falta de f\u00e9!\u201d (Marcos 9:24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A resposta parece paradoxal. Pode-se supor que o pai ou acredita ou n\u00e3o. Como ele pode, como um crente, implorar a Jesus que combata o fato de ele n\u00e3o acreditar? Em \u201cPensamentos\u201d, Pascal repetidamente retorna a esse estado de esp\u00edrito contradit\u00f3rio. Ele menciona David pedindo a Deus: \u201cinclina o meu cora\u00e7\u00e3o aos teus testemunhos\u201d \u2014 isto \u00e9, crer no que ele deveria crer. Essas formula\u00e7\u00f5es paradoxais antecipam a carta de Dostoi\u00e9vski para Natalya Fonvizina, talvez a mais conhecida missiva da literatura russa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando\u00a0 Dostoi\u00e9vski estava sendo levado \u00e0 Sib\u00e9ria depois de ser condenado por trai\u00e7\u00e3o, por seu envolvimento numa organiza\u00e7\u00e3o anti-czarista, Fonvizina lhe deu uma c\u00f3pia do Novo Testamento, \u00fanico livro permitido aos prisioneiros. Cinco anos depois, quando ela estava profundamente deprimida, ele escreveu sua famosa carta para consol\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dostoi\u00e9vski contou para Fonvizina que ele tamb\u00e9m sofria de desesperan\u00e7a, e que \u201cnesses momentos se tem sede de f\u00e9 como \u2018grama seca\u2019, e a encontra, pela simples raz\u00e3o que a verdade brilha mais claramente nos tempos de afli\u00e7\u00e3o\u201d. Ele posteriormente escolheu como ep\u00edgrafe de \u201cOs irm\u00e3os Karam\u00e1zov\u201d: &#8220;Em verdade, em verdade vos digo: se o gr\u00e3o de trigo, ca\u00eddo na terra, n\u00e3o morrer, fica s\u00f3, se morrer, produz muito fruto\u201d (Jo\u00e3o 12:24) \u2014 a qual parece sugerir que a f\u00e9 apenas pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s de grande sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carta de Dostoi\u00e9vski continua: \u201cQuanto a mim, confesso que sou uma crian\u00e7a da minha era [o materialista s\u00e9culo XIX], uma crian\u00e7a da incredulidade e da d\u00favida at\u00e9 o presente momento e (eu tenho certeza disso) at\u00e9 o t\u00famulo\u201d. Nesse aspecto, ele se assemelha \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o posterior, Ivan Karam\u00e1zov, que luta contra suas cren\u00e7as contradit\u00f3rias. Como estudante das ci\u00eancias naturais, Ivan sabe que o mundo \u00e9 governado por leis naturais. Essas leis descrevem o que \u00e9, n\u00e3o que deveria ser, e, portanto, n\u00e3o possuem valores morais. Se as pessoas s\u00e3o objetos materiais como qualquer outro, como afirmam os materialistas, ent\u00e3o se infere que o bom e o mau n\u00e3o t\u00eam base objetiva. Eles n\u00e3o s\u00e3o nada mais que conven\u00e7\u00f5es sociais, que podem variar arbitrariamente em raz\u00e3o do tempo ou espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ratikin, um seminarista c\u00ednico, diz algo semelhante ao Dimitri Karam\u00e1zov. O irm\u00e3o Karam\u00e1zov mais velho lhe parafraseia em seu t\u00edpico tom fren\u00e9tico: \u201cPois o que \u00e9 a virtude? Responde-me, Alieksi\u00eai. Minha virtude \u00e9 uma, a do chin\u00eas, outra &#8211; logo, \u00e9 uma coisa relativa. Ou n\u00e3o? Ou n\u00e3o \u00e9 relativa? \u00c9 uma quest\u00e3o insidiosa! N\u00e3o rias se te digo que passei duas noites sem dormir pensando nisso. Agora s\u00f3 me admira como as pessoas vivem sem pensar nada a respeito\u201d. Se a moral n\u00e3o possui nenhuma base al\u00e9m de conven\u00e7\u00f5es sociais, ela pode intimidar os supersticiosos, mas as pessoas educadas sabem que \u201ctudo \u00e9 permitido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m Ivan acredita tamb\u00e9m exatamente no oposto. Ele sabe, simplesmente sabe, que \u00e9 moralmente errado torturar crian\u00e7as, independentemente de conven\u00e7\u00f5es sociais. Quando Caim assassina Abel, a voz do sangue de Abel clama desde a terra (G\u00eanesis 4:10), e Ivan ouve os gritos de todas aquelas pequeninas v\u00edtimas inocentes como se estivessem sido abusadas sob sua presen\u00e7a. No Cap\u00edtulo \u201cA Revolta\u201d, ele recita sua \u201ccole\u00e7\u00e3o de fatos\u201d \u2014 um tenebroso caso de abuso infantil ap\u00f3s o outro \u2014 para mostrar que, a despeito do que qualquer teoria possa dizer, o mal existe (curiosamente, ele n\u00e3o oferece exemplo de indubit\u00e1vel bondade).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imoralismo absoluto e moralismo extremo. Ivan n\u00e3o consegue honestamente rejeitar nenhum dos dois, e essa contradi\u00e7\u00e3o o arrebenta. Como lhe instrui o profundo psic\u00f3logo Padre Zossima:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ideia ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvida em seu cora\u00e7\u00e3o e o martiriza. Mas o m\u00e1rtir \u00e0s vezes gosta de divertir-se com seu desespero, como que tamb\u00e9m levado pelo desespero. Por ora o senhor tamb\u00e9m se diverte por desespero, quer atrav\u00e9s dos artigos jornal\u00edsticos, quer das conversas mundanas, sem acreditar em sua dial\u00e9tica e, com dor no cora\u00e7\u00e3o, rindo dela consigo mesmo<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zossima se referiu ao artigo que os visitantes ao monast\u00e9rio tinham acabado de discutir. Os leitores j\u00e1 haviam sido informados que Ivan assinava seus artigos como \u201cO Observador\u201d \u2014 isto \u00e9, algu\u00e9m que olha, mas n\u00e3o participa \u2014 e que o artigo em quest\u00e3o \u00e9 t\u00e3o amb\u00edguo, que alguns leitores acham que defende uma vis\u00e3o, enquanto outros a oposta. Enfim, algumas \u201cpessoas perspicazes\u201d conclu\u00edram que Ivan n\u00e3o escreveu um argumento s\u00e9rio, mas \u201cuma ousada farsa e uma zombaria\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O perplexo artigo de Ivan discorre sobre uma quest\u00e3o de nenhum interesse a um estudante de ci\u00eancia natural: a jurisdi\u00e7\u00e3o dos Tribunais Eclesi\u00e1sticos (em oposi\u00e7\u00e3o ao Estado). O que Zossima, e apenas ele, percebe \u00e9 que Ivan formulou seu argumento esotericamente para que pudesse cogitar as quest\u00f5es que o atormentavam, enquanto as possu\u00eda \u00e0 dist\u00e2ncia. O fundamental problema codificado \u00e9: Por que algu\u00e9m n\u00e3o deveria cometer crimes? Com as Cortes Estaduais, Ivan apresenta uma resposta essencialmente amoral: porque se pode ser pego e punido. Com os tribunais eclesi\u00e1sticos, ele prop\u00f5e: porque o crime \u00e9 errado, independentemente de a pessoa ser pega ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A abordagem amoral e utilit\u00e1ria est\u00e1 muito presente entre n\u00f3s. Gary Becker, economista vencedor do Nobel, defendeu que, por todos os comportamentos humanos consistirem em maximizar o prazer e minimizar a dor, a decis\u00e3o de cometer ou de se abster de um crime depende inteiramente de se pesar o benef\u00edcio contra a \u201cpuni\u00e7\u00e3o esperada\u201d \u2014 isto \u00e9, a severidade da puni\u00e7\u00e3o multiplicada pela probabilidade de ser pego. Quanto menor a probabilidade do criminoso ser descoberto, maior deve ser a puni\u00e7\u00e3o para dissuad\u00ed-lo. De acordo com Becker, \u201calgumas pessoas tornam-se \u2018criminosas\u2019, portanto, n\u00e3o por sua motiva\u00e7\u00e3o b\u00e1sica se diferenciar da de outras pessoas, mas porque lhe s\u00e3o diferentes os custos e benef\u00edcios\u201d. \u00a0As aspas em \u201ccriminosos\u201d sublinham a ideia que perturba Ivan: que n\u00e3o h\u00e1 crimes (no senso moral), apenas viola\u00e7\u00f5es de leis arbitr\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O artigo de Ivan faz, de forma disfar\u00e7ada, a pergunta que ele n\u00e3o \u00e9 capaz de responder. Ele quer acreditar no bem e no mal, mas n\u00e3o consegue se for\u00e7ar a esquecer o que sabe sobre as normas sociais (Para usar o exemplo de William James, eu n\u00e3o posso me for\u00e7ar acreditar que Abraham Lincoln n\u00e3o existiu, n\u00e3o importa o qu\u00e3o isso possa me fazer feliz). Pode ser at\u00e9 mais f\u00e1cil para Ivan tornar-se como seu dissoluto pai e negar a exist\u00eancia do bem e do mal. Contudo, a consci\u00eancia honrada de Ivan n\u00e3o lhe permite fazer isso. A quest\u00e3o sobre se existem o bem e o mal, explica o Padre Zossima, \u201cn\u00e3o est\u00e1 resolvida, e nisto reside seu grande sofrimento, pois exige insistentemente uma solu\u00e7\u00e3o\u201d. \u201cMas ela n\u00e3o poder\u00e1 estar resolvida dentro de mim? Resolvida num sentido positivo?\u201d, Ivan pergunta. Zossima responde: &#8220;Se n\u00e3o pode resolver-se no sentido positivo, nunca se resolver\u00e1 no negativo, o senhor mesmo conhece essa qualidade do seu cora\u00e7\u00e3o; e nisso est\u00e1 todo o tormento dele. Mas agrade\u00e7a ao Criador por lhe ter dado um cora\u00e7\u00e3o superior, capaz de sofrer esse tormento: \u2018Pensai nas alturas e as alturas buscai, porque nossa morada est\u00e1 nos c\u00e9us\u2019 \u201c.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Zossima quer dizer que Ivan ou vai acabar acreditando no bem e no mal ou seguir\u00e1 em sua procura; ele nunca afundar\u00e1 como seu pai num amoralismo complacente. Se ele n\u00e3o encontrar a f\u00e9, ele manter\u00e1 sua f\u00e9 na busca pela f\u00e9. E isso igualmente era verdade para Dostoi\u00e9vski.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQue tormentos terr\u00edveis essa sede de acreditar me custou e continua a me custar, queimando mais forte na minha alma quanto mais argumentos contr\u00e1rios existem\u201d, continua Dostoi\u00e9vski na sua carta para Fonvizina. Quanto mais claro que o o\u00e1sis \u00e9 uma miragem, mais ele quer alcan\u00e7\u00e1-lo. Pode a pr\u00f3pria sede ter valor?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda que intensifique sua luta pela f\u00e9, \u201cDeus me envia momentos de completa tranquilidade. Nesses momentos, eu amo e percebo que sou amado por outras pessoas\u201d. Em um desses instantes, Dostoi\u00e9vski formulou o seu \u201ccredo\u201d: N\u00e3o existe nada mais belo, profundo, compreensivo, e perfeito que Cristo, \u201ce n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1, como eu ainda afirmo com um amor cioso que n\u00e3o pode haver\u201d. Deixe de lado o fato de que o credo n\u00e3o coincide com o da Igreja Ortodoxa ou com o de qualquer outra igreja. Considere como \u00e9 estranha a confiss\u00e3o de um \u201camor cioso\u201d [Cioso: que tem ci\u00fames ou zelos por amizade ou por amor; ciumento, zeloso]. Como Dostoi\u00e9vski sabia e demonstrou em sua fic\u00e7\u00e3o, o ci\u00fame (ou a inveja) cega a pessoa. Otelo interpretou mal a sua situa\u00e7\u00e3o. Acreditar por ci\u00fames, uma emo\u00e7\u00e3o egoc\u00eantrica, \u00e9 oferecer um testemunho duvidoso. Ademais, o que Dostoi\u00e9vski afirma aqui n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia, mas a beleza de Cristo. Ateus j\u00e1 afirmaram coisas nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A declara\u00e7\u00e3o mais Famosa de F\u00e9 de Dostoi\u00e9vski \u00e9 a seguinte: \u201cAl\u00e9m disso, se algu\u00e9m me demonstrasse que Cristo est\u00e1 fora da verdade e se realmente a verdade estivesse fora de Cristo, melhor para mim querer ficar com Cristo que com a verdade\u201d. O que pode significar essa declara\u00e7\u00e3o? Dostoi\u00e9vski parece dizer que ele acreditar\u00e1 em Cristo mesmo que saiba que a cren\u00e7a, n\u00e3o somente care\u00e7a de base, seja realmente falsa. Mas \u201cacreditar\u201d significa considerar algo como verdadeiro. Saber que algo \u00e9 falso, mas consider\u00e1-lo verdadeiro parece n\u00e3o fazer sentido. Como Ivan, Dostoi\u00e9vski \u00e9 um mestre dos paradoxos \u2014 talvez o maior de toda a literatura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para elucidar o que Dostoi\u00e9vski talvez tenha desejado dizer, Joseph Frank menciona Kierkegaard, que tenta descrever um tipo de f\u00e9: \u201cSe eu tenho ou n\u00e3o f\u00e9 jamais pode ser afirmado por mim com certeza imediata \u2014 pois a f\u00e9 \u00e9 precisamente essa flutua\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica, que est\u00e1 incessantemente com medo e tremor, mas nunca em desespero; a f\u00e9 \u00e9 exatamente essa preocupa\u00e7\u00e3o incessante consigo mesmo, que mant\u00e9m a pessoa alerta e pronta para arriscar tudo; essa preocupa\u00e7\u00e3o consigo sobre se realmente se tem f\u00e9 \u2014 e veja! precisamente essa preocupa\u00e7\u00e3o consigo mesmo \u00e9 a f\u00e9.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dostoi\u00e9vski certamente descreve um estado de \u201cflutua\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica\u201d, mas n\u00e3o pode se dizer que ele nunca esteve \u201cem desespero\u201d. Justamente o oposto. Contrariamente ao Kierkegaard, ele descreve n\u00e3o uma preocupa\u00e7\u00e3o se ele tem ou n\u00e3o f\u00e9, mas uma luta com a descren\u00e7a. Kierkegaard anseia pela f\u00e9 em sua f\u00e9, Dostoi\u00e9vski anseia pela pr\u00f3pria f\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entendemos melhor a carta de Dostoi\u00e9vski ao considerar sua preocupa\u00e7\u00e3o com o processo. Ele descreve a busca de f\u00e9 como uma forma da pr\u00f3pria f\u00e9, uma que pode ser especialmente adequada para uma pessoa do seu s\u00e9culo (ou o nosso). Tal f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 um estado, mas um processo, talvez um que n\u00e3o tenha fim. N\u00e3o \u00e9 uma posse, mas uma procura. O diabo que visita Ivan Karam\u00e1zov menciona essa diferen\u00e7a quando se arrepende de viver num mundo de \u201cequa\u00e7\u00f5es indefinidas\u201d e sonha em \u201cencarnar &#8211; mas que seja definitivamente, irreversivelmente &#8211; em alguma mulher de comerciante, gorda, que pese umas sete arrobas, e acreditar em tudo que ela acredita. Meu ideal \u00e9 entrar na igreja e acender uma vela de todo cora\u00e7\u00e3o, juro!\u201d. A f\u00e9 simples de todo o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais est\u00e1 dispon\u00edvel \u00e0s pessoas letradas; por\u00e9m pode estar a f\u00e9 processual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repetidamente, Dostoi\u00e9vski arguiu que o corresponde a um processo aquilo que normalmente \u00e9 tomado como estado. Essa distin\u00e7\u00e3o vai ao \u00e2mago do pensamento de Dostoi\u00e9vski. Considere-se seus artigos sobre o caso Kairova, um julgamento descrito no seu \u201cDi\u00e1rios de um escritor\u201d. Ao descobrir que seu amante, um homem casado, estava dormindo com sua esposa no apartamento dela pr\u00f3pria, Kairova, ela comprou uma navalha. Depois de esperar um pouco do lado de fora, ele entrou no apartamento, aproximou-se do casal adormecido, e come\u00e7ou a cortar sua rival, mas o casal a impediu ao acordar. Kairova foi acusada de tentativa de homic\u00eddio. O j\u00fari foi perguntado se Kairova, se n\u00e3o fora impedida, teria cometido o assassinato \u2014 se essa era sua aten\u00e7\u00e3o. Dostoi\u00e9vski argumenta que a quest\u00e3o n\u00e3o pode ser respondida, n\u00e3o por falta de informa\u00e7\u00e3o, mas porque pressup\u00f5e algo n\u00e3o verdadeiro sobre inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comumente pensamos em inten\u00e7\u00f5es como John Locke as descreveu. Todas as a\u00e7\u00f5es derivam de uma inten\u00e7\u00e3o anterior, ele defendeu. As inten\u00e7\u00f5es podem certamente ser alteradas. Podemos \u201cter nossas vontades indeterminadas at\u00e9 examinarmos\u201d a situa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m se formos realmente agir, devemos chegar numa inten\u00e7\u00e3o. A n\u00e3o ser que obst\u00e1culos externos intervenham, \u201co que segue ap\u00f3s o que ocorre numa corrente de circunst\u00e2ncias, ligadas umas \u00e0s outras, tudo dependendo de uma \u00faltima determina\u00e7\u00e3o da vontade\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Dostoi\u00e9vski, o que Locke descreve consiste em apenas um tipo de inten\u00e7\u00e3o. Talvez a de Kairova n\u00e3o estivesse definida ou completa antes de sua a\u00e7\u00e3o. Pode ter evolu\u00eddo, passo a passo, ao lado de sua a\u00e7\u00e3o. Quando comprara a navalha, qui\u00e7\u00e1 n\u00e3o soubesse se a usaria. Ela estava irritada, mortalmente irritada, e talvez ela se armara por precau\u00e7\u00e3o, se realmente resolvesse assassinar sua rival.\u00a0 Possivelmente estivesse deixando as portas abertas, mesmo tendo, em sua ira, atacado o casal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dostoi\u00e9vski j\u00e1 havia descrito esse estado mental. Raskolnikov, o protagonista de \u201cCrime e Castigo\u201d, mata a velha penhorista sem ter previamente decidido faz\u00ea-lo! Durante todos os passos do processo, ele se recusa a descartar a possibilidade que ele poder\u00e1 cometer homic\u00eddio. Ele acha a probabilidade confortante por lhe dar um senso de poder diante, de outro modo, de um desesperan\u00e7oso estado das coisas. Tudo o que ele quer \u00e9 deixar as op\u00e7\u00f5es abertas. \u201cE mesmo assim,\u201d, o narrador explica: \u201cse algum dia acontecesse de tudo j\u00e1 ter sido examinado e decidido por ele at\u00e9 o \u00faltimo ponto e de forma definitiva, e j\u00e1 n\u00e3o restassem mais quaisquer d\u00favidas, mesmo assim, parece, ele acabaria renunciando a tudo como ao absurdo, monstruoso e imposs\u00edvel. Mas restava ainda todo um abismo de pontos n\u00e3o resolvido e d\u00favidas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raskolnikov vive no territ\u00f3rio localizado entre a ado\u00e7\u00e3o e ren\u00fancia de seu plano para matar. Todavia, \u00e0 medida que esse territ\u00f3rio se reduz a um ponto de inflex\u00e3o, ele se v\u00ea na cena do crime, machado \u00e0 m\u00e3o. Ao menos ele pode manter a possibilidade de homic\u00eddio aberta, somente se o cometer \u2014 ainda sem ter se decidido faz\u00ea-lo. Por isso que ele se comporta \u201cde maneira quase inteiramente mec\u00e2nica: como se algu\u00e9m o segurasse pelo bra\u00e7o e o arrastasse, de forma irresist\u00edvel, cega, com uma for\u00e7a antinatural, sem obje\u00e7\u00f5es. Como se uma nesga da sua roupa tivesse ca\u00eddo debaixo de uma roda de m\u00e1quina e esta come\u00e7asse a trag\u00e1-lo\u201d. Ele est\u00e1 \u201cquase inconsciente do pr\u00f3prio corpo\u201d. Eu imagino que ningu\u00e9m antes de Dostoi\u00e9vski havia descrito um homic\u00eddio dessa maneira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dostoi\u00e9vski pressup\u00f5e que Kairova reagiu a cada momento sem decidir o que faria em seguida, muito menos se mataria ou n\u00e3o a esposa de seu amante:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muito provavelmente ela n\u00e3o possu\u00eda a m\u00ednima ideia disso quando sentada sobre os degraus, navalha \u00e0 m\u00e3o, mesmo enquanto logo atr\u00e1s dela, em sua pr\u00f3pria cama, deitavam-se seu amante e sua rival&#8230;Al\u00e9m disso, mesmo que possa parecer absurdo, posso afirmar que at\u00e9 quando ela come\u00e7ou a retalhar sua rival, ela poderia ainda n\u00e3o saber se queria ou n\u00e3o a matar, e se esse era seu prop\u00f3sito ao atac\u00e1-la.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nada \u00e9 final. O tempo \u00e9 sempre aberto. Isso \u00e9 o que Dostoi\u00e9vski entende pelo conceito de processo. Um verdadeiro processo n\u00e3o consiste num simples desenrolar de passos determinados, como Locke imaginou, mas uma sequ\u00eancia com m\u00faltiplas possibilidades em cada momento. Se n\u00e3o tivesse sido contida, Dostoi\u00e9vski explica, Kairova poderia ter deslizado a navalha sobre a garganta da rival, \u201ce a seguir, gritado, estremecido, e corrido o mais r\u00e1pido que pudesse\u201d. Ou ele poderia ter voltado \u00e0 navalha contra si. Ou poderia ter ficado inflamada com a vis\u00e3o do sangue, e n\u00e3o apenas assassinado sua rival, mas come\u00e7asse a \u201cabusar o seu corpo, cortar sua cabe\u00e7a, nariz, l\u00e1bios, e somente mais tarde, de supet\u00e3o, quando algu\u00e9m tomasse a cabe\u00e7a de suas m\u00e3os. Percebido o que fizera\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como ent\u00e3o o j\u00fari poderia de algum modo determinar o que Kairova \u201cpretendia\u201d fazer? Todos esses desenlaces \u201cpoderiam ter acontecido e poderiam ter sido feitos por essa mesma mulher e surgidos dessa mesma alma, no exato estado de esp\u00edrito, e sob as mesmas circunst\u00e2ncias\u201d. Se esse \u00e9 o caso, ent\u00e3o o determinismo \u00e9 falso, poque disp\u00f5e que em qualquer determinado momento, uma, e somente uma, coisa pode acontecer. Cada momento \u00e9 exaustivamente especificado por outros anteriores; n\u00e3o h\u00e1 jogada livre no sistema, nenhum espa\u00e7o de manobra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, para Dostoi\u00e9vski, qualquer coisa que ocorra, outra poderia ter acontecido em seu lugar. N\u00f3s vivemos num mundo processual, um sempre escurecido por aquele \u201calgo mais\u201d, um mundo no qual, para entender o que ocorreu, deve-se imaginar as alternativas. Sempre h\u00e1 outras escolhas que poderiam ter sido feitas. Se n\u00e3o fosse o caso, a liberdade humana seria uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob o ponto de vista de Dostoi\u00e9vski, o determinismo n\u00e3o apenas destruiria a responsabilidade moral, de igual modo nos privaria de uma individualidade significativa. Afinal, n\u00f3s nos moldamos atrav\u00e9s de nossas escolhas. Sem alternativas reais, perder\u00edamos nossa humanidade e nos tornar\u00edamos aut\u00f4matos, ou, como assevera o protagonista do livro \u201cMem\u00f3rias do Subsolo\u201d de Dostoi\u00e9vski, teclas de piano ou registros de \u00f3rg\u00e3os acionados pelas leis da natureza. Se os cientistas sociais pudessem \u2014 pelo menos em princ\u00edpio \u2014 prever nossas a\u00e7\u00f5es t\u00e3o fielmente quanto astr\u00f4nomos podem tra\u00e7ar a \u00f3rbita de Marte, a vida seria sugada de significado. \u201cPretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela raz\u00e3o\u201d, declarou Tolst\u00f3i em \u201cGuerra e Paz\u201d, \u201c\u00e9 destruir toda a possibilidade de vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dostoi\u00e9vski compreendeu a f\u00e9 processualmente, porque entendeu a vida humana processualmente. As pessoas fazem escolhas \u00e0s quais n\u00e3o podem ser conhecidas previamente. Elas est\u00e3o sempre se tornando. Isso \u00e9 o que significa ser um humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cIrm\u00e3os Karam\u00e1zov\u201d, Dimitri pega um pil\u00e3o, tanto quanto Kairova pegara uma navalha. No seu julgamento, o procurador oferece aquela a\u00e7\u00e3o como evid\u00eancia de uma pr\u00e9via inten\u00e7\u00e3o de matar, mas definitivamente n\u00e3o \u00e9 o caso. Como Kairova, Dimitri estava sob uma ira homicida, mas n\u00e3o sabia o que realmente viria a fazer. Essa, exatamente, \u00e9 uma forma de funcionamento da ira: ela prev\u00ea possibilidades violentas. Mas mesmos quanto estamos irados, somos livres. Dimitri contou para Ali\u00f3cha que poderia chegar um momento no qual ele n\u00e3o saberia se ele controlaria para n\u00e3o matar Fi\u00f3dor P\u00e1vlovitch. Por fim, Dimitri n\u00e3o matou seu pai, mas era poss\u00edvel faz\u00ea-lo at\u00e9 o \u00faltimo momento. Praticamente da mesma maneira, o indigente Smeguiriov n\u00e3o sabia se pisotearia no dinheiro oferecido por Ali\u00f3cha, at\u00e9 faz\u00ea-lo. Sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era anterior, mas coincidente ao ato. Uma raz\u00e3o pela qual Dostoi\u00e9vski cria extremamente tensas cenas de suspense, nas quais ele torna o instante palp\u00e1vel, \u00e9 por querer que os leitores experimentem que as coisas poderiam ir para um lado ou outro. N\u00f3s sentimos o pulsar da escolha em andamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um problema com os ut\u00f3picos, Dostoi\u00e9vski repetidamente argumentou, \u00e9 que eles postulam um objetivo para a vida humana, o est\u00e1gio final de \u00eaxtase, e assim compreendem equivocadamente a natureza da vida, como vivida pelas pessoas. Em nossa experi\u00eancia do tempo, nenhum momento \u00e9 completo em si. N\u00f3s sempre vivemos em dire\u00e7\u00e3o a um futuro incerto. Se n\u00e3o fosse o caso, se tudo fosse predeterminado, logo despareceriam o risco, a conquista, e o esfor\u00e7o. Mas a vida humana \u00e9 uma luta, ent\u00e3o dar as pessoas tudo que desejam \u00e9 priv\u00e1-las de sua humanidade. Isso \u00e9 o que Dostoi\u00e9vski quis dizer quando se referiu \u00e0 sociedade socialista como um \u201cformigueiro\u201d. As formigas fazem o que foram feitas para fazer, mas as pessoas est\u00e3o sempre se tornando. Satisfa\u00e7a todo poss\u00edvel desejo humano e:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas subitamente perceberiam que n\u00e3o possu\u00edam mais vida restante, que n\u00e3o tinham liberdade de esp\u00edrito, nenhuma vontade, nenhuma personalidade, que algu\u00e9m roubara tudo isso dele; eles veriam que desaparecera sua imagem humana, e que emergia a imagem bruta de um escravo, a imagem de um animal, com a diferen\u00e7a de que a fera n\u00e3o se percebe fera, mas um homem perceberia que se tornara uma fera&#8230;As pessoas compreenderiam que n\u00e3o existe felicidade na inatividade, que a mente, que n\u00e3o trabalha, definhar\u00e1, que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel amar o pr\u00f3ximo sem sacrificar por ele o seu pr\u00f3prio trabalho&#8230; e que a felicidade n\u00e3o reside na felicidade em si, mas n\u00e3o tentativa de alcan\u00e7\u00e1-la.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qualquer um que conhe\u00e7a as obras de Dostoi\u00e9vski vai relembrar qu\u00e3o frequentemente ele verbaliza varia\u00e7\u00f5es desse tema. Em \u201cO idiota\u201d, Ippolit notoriamente conclui que \u201cpodem estar certos de que Colombo foi feliz, n\u00e3o no momento em que descobriu a Am\u00e9rica, mas quando a estava descobrindo\u2026 A quest\u00e3o est\u00e1 na vida, apenas na vida \u2014 no seu descobrir-se, cont\u00ednuo e eterno, e de maneira alguma na sua descoberta!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contemplando o corpo de sua primeira esposa, que acabara de falecer, Dostoi\u00e9vski registrou estes pensamentos: \u201cMasha est\u00e1 deitada sobre a mesa. Ser\u00e1 que vou encontrar Masha novamente?\u201d. Ele reflete: os ateus questionam por que, se o Cristianismo \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o h\u00e1 para\u00edso na terra. \u201cPor que o homem sofre at\u00e9 hoje e n\u00e3o se une em irmandade?\u201d. A resposta \u00e9 que, enquanto viver na terra, ele est\u00e1 num processo. Se alcan\u00e7asse \u201co objetivo final da humanidade\u2026n\u00e3o seria mais necess\u00e1rio se desenvolver, alcan\u00e7ar, vislumbrar o ideal atrav\u00e9s das quedas, e eternamente lutar para alcan\u00e7\u00e1-lo \u2014 consequentemente, n\u00e3o seria necess\u00e1ria viver&#8230; Assim, na terra, o homem \u00e9 apenas uma criatura em desenvolvimento, consequentemente algu\u00e9m n\u00e3o completo, mas transicional\u201d. Como o pensador russo Mikhail Bakhtin dizia, n\u00f3s somos \u201cinfinaliz\u00e1veis\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida \u00e9 um uma constante tornar-se. Consiste em escolhas feitas na incerteza e, pela sua pr\u00f3pria natureza, implica d\u00favida. Tudo o que Cristo disse ou fez pressup\u00f4s que \u201co homem est\u00e1 num estado transit\u00f3rio\u201d e que a \u201cvida aqui na terra est\u00e1 se desenvolvendo\u201d. Por isso que a f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 em si processual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A f\u00e9 habita na possibilidade e esperan\u00e7a, risco e luta. N\u00e3o se tem \u201cf\u00e9\u201d no Teorema de Pit\u00e1goras, ou em qualquer outro fato ineg\u00e1vel. A f\u00e9, como o livre arb\u00edtrio, pressup\u00f5e a d\u00favida. Essa \u00e9 a ideia central do mais famoso cap\u00edtulo j\u00e1 escrito por Dostoi\u00e9vski, \u201cO Grande Inquisidor\u201d, uma est\u00f3ria composta por Ivan Karam\u00e1zov. O Inquisidor acusa Jesus de tornar as pessoas infelizes ao deix\u00e1-las num fundo de liberdade e incerteza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com d\u00favida e escolha, vem culpa e arrependimento. As pessoas rotineiramente percebem que fizeram a escolha errada. N\u00e3o seria melhor n\u00e3o ter nenhuma escolha? N\u00e3o importa o que dizem, argumenta o Inquisidor, as pessoas n\u00e3o querem a liberdade e o sofrimento que ela implica. Elas querem algo indubit\u00e1vel para adorar. Mas enquanto pessoas diversas adorarem deuses diferentes, haver\u00e1 d\u00favida. As pessoas est\u00e3o destinadas questionar se sua adora\u00e7\u00e3o se deve apenas ao acaso do local acidental de seu nascimento. H\u00e1 verdades neste lado do Pirineus [cadeia de montanhas que forma uma fronteira natural entre a Fran\u00e7a e a Espanha], que s\u00e3o falsas do outro lado, assim Pascal refletiu. Portanto, a adora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficiente. As pessoas necessitam de uma \u201cconverg\u00eancia na sujei\u00e7\u00e3o\u201d, pois, como escreveu Dostoi\u00e9vski:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa necessidade da converg\u00eancia na sujei\u00e7\u00e3o \u00e9 que constitui o tormento principal de cada homem individualmente e de toda a humanidade desde o in\u00edcio dos tempos. Por se sujeitarem todos juntos eles se exterminaram uns aos outros a golpes de espada&#8230; \u2018Deixai vossos deuses e vinde sujeitar-se aos nossos, sen\u00e3o ser\u00e1 a morte para v\u00f3s e os vossos deuses!\u2019. E assim ser\u00e1 at\u00e9 o fim do mundo, mesmo quando os deuses tamb\u00e9m desaparecerem na Terra: seja como for, h\u00e3o de prosternar-se diante dos \u00eddolos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recontando a hist\u00f3ria das tenta\u00e7\u00f5es de Cristo, o Inquisidor argumenta, que para tornar felizes as pessoas, Jesus deveria ter aceitado o que Diabo ofereceu. Aceitando \u201cp\u00e3o\u201d \u2014 isto \u00e9, poder material \u2014 Jesus teria banido a d\u00favida, \u201cporquanto n\u00e3o h\u00e1 nada mais indiscut\u00edvel do que o p\u00e3o\u201d. Eu posso duvidar do Credo dos Ap\u00f3stolos, mas n\u00e3o da dor corporal que o poder material pode infligir. Em vez do poder, Jesus escolheu liberdade, e \u201cem vez de fundamentos s\u00f3lidos para tranquilizar para sempre a consci\u00eancia humana, tu lan\u00e7aste m\u00e3o de tudo o que h\u00e1 de mais ins\u00f3lito, duvidoso e indefinido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Jesus desejava, segundo o Inquisidor, n\u00e3o era a base de adora\u00e7\u00e3o do escravo, n\u00e3o o reconhecimento autom\u00e1tico de um fato indubit\u00e1vel, mas f\u00e9 verdadeira, a qual presume incerteza e d\u00favida. Se houvesse prova indubit\u00e1vel de Deus, e se o certo e errado fossem sempre claros, n\u00e3o existira necessidade, e realmente nenhuma possibilidade de f\u00e9. Infelizmente para a humanidade, o Inquisidor diz a Jesus: &#8220;Desejaste o amor livre do homem para que ele te seguisse livremente&#8230; Doravante o pr\u00f3prio homem deveria resolver de cora\u00e7\u00e3o livre o que \u00e9 o bem e o que \u00e9 o mal, tendo diante de si apenas a tua imagem como guia\u201d. Uma imagem n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula; n\u00e3o especifica um curso de a\u00e7\u00e3o. N\u00f3s podemos recordar do credo de Dostoi\u00e9vski, que nada \u00e9 mais belo que a imagem de Cristo. A beleza atrai, a beleza ilumina, a beleza \u201csalvar\u00e1 o mundo\u201d, como lemos em \u201cO Idiota\u201d. Por\u00e9m a beleza n\u00e3o elimina a incerteza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sob a mesma l\u00f3gica, o Inquisidor argumenta, Jesus deveria ter aceitado a segunda tenta\u00e7\u00e3o, e provado sua divindade atrav\u00e9s de um milagre. \u201cNutriste a esperan\u00e7a de que, seguindo-te, o homem tamb\u00e9m estaria com Deus, sem precisar do milagre\u201d. As pessoas zombaram de Jesus: Desce da cruz e creremos que \u00e9s tu! Mas \u201cn\u00e3o desceste porque mais uma vez n\u00e3o quiseste escravizar o homem pelo milagre e ansiavas pela f\u00e9 livre e n\u00e3o pela miraculosa. Ansiavas pelo amor livre e n\u00e3o pelo enlevo servil do escravo diante do poderio que o aterrorizara de uma vez por todas\u201d. Os milagres impressionam gigantescamente \u2014 banem a d\u00favida, induzem um estado de \u201cadora\u00e7\u00e3o base\u201d \u2014 exatamente o oposto do estado que se escolhe entre alternativas vivas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de a religi\u00e3o comumente apelar aos milagres como uma garantia para a cren\u00e7a, Dostoi\u00e9vski defende o oposto. Se voc\u00ea aceita Deus por ele ter dividido o Mar Vermelho ou acredita em Jesus por ele ter levantado L\u00e1zaro dos mortos, ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 tudo menos um crist\u00e3o. Nesse caso, voc\u00ea adora a Deus tal qual um escravo se submente ao poder, e aceita Jesus como um pag\u00e3o que se curva diante de um \u00eddolo. Voc\u00ea poderia de igual modo adorar o todo-poderoso Zeus. Para Dostoi\u00e9vski, um crist\u00e3o n\u00e3o acredita em Jesus porque Ele realizou milagres; ele acredita nos milagres por ter f\u00e9 em Jesus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00f3cha Karam\u00e1zov sofre uma d\u00favida tormentosa porque o n\u00e3o ocorre o milagre que esperava. Mas quando ele se encontra, em amor ativo, consolando Grushenka, ele descobre uma f\u00e9 que \u00e9 compat\u00edvel com a incerteza. Essa \u00e9 a li\u00e7\u00e3o que o Padre Zossima queria que aprendesse. Agora Ali\u00f3cha percebe: \u00a0Esse \u00e9 o motivo pelo qual Zossima o enviou do monast\u00e9rio para \u201co mundo\u201d, onde ele est\u00e1 destinado a encontrar diversos testes de sua f\u00e9. Se a f\u00e9 verdadeira \u00e9 uma luta pela f\u00e9, n\u00e3o poderia ser de outro jeito. Ali\u00f3cha percebe que quaisquer d\u00favidas que possam atac\u00e1-lo, elas podem ser parte, em vez de minar sua f\u00e9 rec\u00e9m-descoberta. E ent\u00e3o \u201cAli\u00f3cha observava parado, e de repente desabou de joelhos sobre a terra como se o tivessem abatido. N\u00e3o sabia por que a abra\u00e7ava, n\u00e3o se dava conta da raz\u00e3o pela qual sentira uma vontade incontida de beij\u00e1-la, de beij\u00e1-la toda\u201d. Ele n\u00e3o precisa saber por qu\u00ea. \u201cTr\u00eas dias depois ele deixou o mosteiro, o que estava de acordo com a palavra do seu falecido \u2018st\u00e1rietz\u2019 [o Padre Zossima], que lhe ordenara &#8216;residir no mundo&#8217; &#8220;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo em meio \u00e0 d\u00favida, Dostoi\u00e9vski sabia que, para n\u00f3s, seres em transi\u00e7\u00e3o, a f\u00e9 real sempre reside na incerteza. Assim como a felicidade, ela consiste em sua busca. O objetivo est\u00e1 na procura. \u201cConforte-se\u201d, Pascal escreveu, \u201cVoc\u00ea n\u00e3o me procuraria se j\u00e1 n\u00e3o tivesse me encontrado\u201d.<\/p>\n<div style=\"padding-bottom:20px; padding-top:10px;\" class=\"hupso-share-buttons\"><!-- Hupso Share Buttons - https:\/\/www.hupso.com\/share\/ --><a class=\"hupso_counters\" href=\"https:\/\/www.hupso.com\/share\/\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/buttons\/lang\/pt\/share-small.png\" style=\"border:0px; padding-top:2px; float:left;\" alt=\"Share Button\"\/><\/a><script type=\"text\/javascript\">var hupso_services_c=new Array(\"twitter\",\"facebook_like\",\"facebook_send\",\"pinterest\",\"email\",\"print\",\"linkedin\");var hupso_counters_lang = \"pt_BR\";var hupso_image_folder_url = \"\";var hupso_twitter_via=\"blogdootavio\";var hupso_url_c=\"\";var hupso_title_c=\"O%20credo%20de%20Dostoi%C3%A9vski\";<\/script><script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/js\/counters.js\"><\/script><!-- Hupso Share Buttons --><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div style=\"padding-bottom:20px; padding-top:10px;\" class=\"hupso-share-buttons\"><!-- Hupso Share Buttons - https:\/\/www.hupso.com\/share\/ --><a class=\"hupso_counters\" href=\"https:\/\/www.hupso.com\/share\/\"><img src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/buttons\/lang\/pt\/share-small.png\" style=\"border:0px; padding-top:2px; float:left;\" alt=\"Share Button\"\/><\/a><script type=\"text\/javascript\">var hupso_services_c=new Array(\"twitter\",\"facebook_like\",\"facebook_send\",\"pinterest\",\"email\",\"print\",\"linkedin\");var hupso_counters_lang = \"pt_BR\";var hupso_image_folder_url = \"\";var hupso_twitter_via=\"blogdootavio\";var hupso_url_c=\"\";var hupso_title_c=\"O%20credo%20de%20Dostoi%C3%A9vski\";<\/script><script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/js\/counters.js\"><\/script><!-- Hupso Share Buttons --><\/div><p>Deparei-me na internet com um brilhante e tocante artigo sobre a f\u00e9 (e a d\u00favida) em Dostoi\u00e9vski, publicado na Revista &#8220;First Things&#8221;, intitulado &#8220;Dostoevsky&#8217;s Credo&#8221; (O Credo de Dostoi\u00e9vski), escrito pelo c\u00e9lebre\u00a0Gary Saul Morson, Professor de Artes e Humanidades, e L\u00ednguas Esl\u00e1vicas e e Literatura da Universidade. Sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o inclui os seus dois [&hellip;]<\/p>\n<div style=\"padding-bottom:20px; padding-top:10px;\" class=\"hupso-share-buttons\"><!-- Hupso Share Buttons - https:\/\/www.hupso.com\/share\/ --><a class=\"hupso_counters\" href=\"https:\/\/www.hupso.com\/share\/\"><img src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/buttons\/lang\/pt\/share-small.png\" style=\"border:0px; padding-top:2px; float:left;\" alt=\"Share Button\"\/><\/a><script type=\"text\/javascript\">var hupso_services_c=new Array(\"twitter\",\"facebook_like\",\"facebook_send\",\"pinterest\",\"email\",\"print\",\"linkedin\");var hupso_counters_lang = \"pt_BR\";var hupso_image_folder_url = \"\";var hupso_twitter_via=\"blogdootavio\";var hupso_url_c=\"\";var hupso_title_c=\"O%20credo%20de%20Dostoi%C3%A9vski\";<\/script><script type=\"text\/javascript\" src=\"https:\/\/static.hupso.com\/share\/js\/counters.js\"><\/script><!-- Hupso Share Buttons --><\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":2353,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[31,9],"tags":[79,221,44],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799"}],"collection":[{"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2799"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2820,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2799\/revisions\/2820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2799"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2799"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/otaviopinto.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2799"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}