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História

“Holocausto revolucionário”: Marx escreveu isso?

“AS CLASSES E AS RAÇAS, FRACAS DEMAIS PARA CONDUZIR AS NOVAS CONDIÇÕES DA VIDA, DEVEM DEIXAR DE EXISTIR. ELAS DEVEM PERECER NO HOLOCAUSTO REVOLUCIONÁRIO.” 

Encontra-se essa citação em vários sites brasileiros (comum também em inglês nas páginas estrangeiras), talvez numa tentativa de associar Karl Marx à ideologia nazista. Pois bem, assim como na falsa frase de Lênin (“Acuse os adversários do que você faz, chame-os do que você é”) explicada em post anterior, quem atribui esta citação ao pensador alemão não aponta uma fonte comprovadamente autêntica.

Numa pesquisa online, encontrei uma discussão interessante no “reddit” sobre a origem da frase, baseada em documentos de autoria dos autores comunistas, Marx e Engels. A partir daí, foi possível buscar as fontes primárias para tentar estabelecer a origem da citação e verificar sua veracidade.

Em 22 de março de 1853, Karl Marx escreveu o seguinte trecho num artigo publicado no “New York Daily Tribune”, no qual critica o desenvolvimento do capitalismo (tradução livre; grifos meus):

A sociedade está passando por uma silenciosa revolução, a qual deve ser submetida, e a qual não mais toma conhecimento da existência humana que destrói, tanto quanto um terremoto em relação às casas que subverte. As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ceder. Mas pode haver algo mais pueril, míope, que os pontos de vista daqueles economistas que acreditam sinceramente que este lastimável estado transitório não significa nada além da adaptação da sociedade às propensões aquisitivas dos capitalistas? Na Grã-Bretanha, o funcionamento daquele processo é mais transparente. A aplicação da ciência moderna remove a terra dos seus habitantes, mas concentra as pessoas em cidades industriais.

 

Em outro artigo, escrito em 1849, Friedrich Engels (parceiro intelectual de Marx) discorre sobre as revoluções de 1848, o papel das nações envolvidas, e como povos, outrora reprimidos, se tornam contrarrevolucionários:

Como ocorreu essa divisão de nações, qual foi sua base?

A divisão ocorre de acordo com todas histórias anteriores das nacionalidades em questão. É o início da decisão sobre a vida ou morte dessas nações, pequenas ou grandes.

Toda a história inicial da Áustria até os dias atuais é prova disso e 1848 a confirmou. Entre todas as grandes e pequenas nações da Áustria, apenas três porta-estandartes do progresso tiveram um papel ativo na história, e ainda mantém sua vitalidade — os alemães, poloneses e magiares (húngaros). Logo, eles são agora revolucionários.

Todas as outras grandes e pequenas nacionalidades e povos estão destinadas a perecer em pouco tempo na tempestade revolucionária mundial. Por essa razão, elas são agora contrarrevolucionárias.

 

Ora, juntando os dois trechos negritados, um de Marx, outro de Engels, chega-se a seguinte frase:

“As classes e as raças, fracas demais para dominar as novas condições de vida, devem ceder (…) estão destinadas a perecer em pouco tempo na tempestade revolucionária mundial”. 

Praticamente idêntica à difundida “citação de Marx”! Portanto, factível concluir pela sua falsidade; ela foi construída a partir da união de dois trechos sem relação, escritos por dois autores diferentes. Adicionou-se ainda o  termo “holocausto” (inexistente no texto de Engels), possivelmente, para causar um impacto maior, numa tentativa de culpar Marx pelo posterior racismo nazista.

Mas qual seria a origem da farsa? O termo “holocausto” atribuído a Marx e/ou Engels, talvez tenha sido primeiro relatado pelo crítico literário e historiador inglês, membro do partido liberal, George G. Watson, num artigo escrito em 1976, no qual ele liga o marxismo ao racismo. O autor transcreve um trecho de um texto que caracteriza como publicado por Marx, “mas provavelmente escrito por Engels”: “The chief mission of all other races and peoples —  large and small — is to perish in the revolutionary holocaust. Therefore they are counterrevolutionary” (“A principal missão de todos os povos e raças — grandes e pequenos — é perecer no holocausto revolucionário. Portanto, eles são contrarrevolucionários”).  Nota-se que o autor, além de não transcrever corretamente a frase (trocou “nacionalidades” por “raças”, por exemplo), substituiu as expressão original (não sei se propositadamente ou induzido em erro por outro escritor) “tempestade revolucionária mundial” por “holocausto revolucionário”.

E quanto à citação completa? Em um documentário lançado em 2008, chamado “The Soviet History” (“A história soviética”), há uma participação do supracitado George G. Watson, na qual ele diz:

Ele primeiro apareceu em janeiro, 1849, no jornal de Marx, “Neue Rheinische Zeitung”, Engels escreveu sobre a guerra de classes, nos termos marxistas. Quando a revolução socialista acontecer, a guerra de classes acontecer, haverá sociedades primitivas na Europa, dois estágios atrás, porque elas não são nem capitalistas ainda. Ele tinha em mente os bascos, os bretões, os escoceses, os sérvios. E ele os chamava de ‘lixo racial’ (nota do autor deste post: também não existe essa expressão ‘lixo racial’ no texto original). E eles teriam que ser destruídos, porque estando dois estágios atrás do combate histórico, seria impossível alçá-los ao nível dos revolucionários.

 

Em seguida, o narrador do documentário lê a “citação de Marx”. Na imagem que aparece na tela, há a indicação da união de dois textos diferentes (captura e vídeo legendado do trecho abaixo):

karl-marx-holocausto-revolucionário

Como se pode perceber, o autor do documentário, ao atribuir a “citação” a Marx, não prestou atenção nas palavras proferidas segundos antes pelo próprio historiador, o qual mencionou um texto escrito por Engels, não Marx. Mediante um malabarismo incrível, talvez surgiu nesse momento a falsa frase de Marx, pois apenas a partir de 2008 (data do documentário), ela começou a ser divulgada dessa forma na internet.

Alfim, vale informar que Glenn Beck, famoso e polêmico jornalista americano, também ajudou a propagar a frase falsa numa edição especial do seu programa na Fox News, intitulada “The revolutionary holocaust” (“O holocausto revolucionário”).

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21 Comments

  1. Anon

    Pq vc ta falando que a gente quer associar esta frase com o Nazismo? Todo mundo sabe que não tem nada a ver, a gente relaciona com o COMUNISMO msm, que matou muito mais que o partido nazista, Stalin e Mao Tse Tsung, conhece? Ou vai fingir que eles nunca fizeram nada de errado, em nome do Socialismo que só aconteceu pelo O GRANDE PENSADOR (kkkkk) Karl Marx

    • Otávio Pinto

      Obrigado pela visita e comentário, Anon. O texto trata apenas sobre a inveracidade da frase. Nada além disso.
      Atenciosamente,
      Otávio Pinto.

  2. Fábio

    Ok. Então a conclusão é “deturparam Marx”. Certo? Além do autor do documentário, Stalin, Mao Tse-Tung, Kim Il-sung, Hideki Tojo, Pol Pot, Che Guevara e Fidel Castro também deturparam Marx. É isso? Ô ideologiazinha difícil de entender, hem!

    • Otávio Pinto

      Obrigado pela visita e comentário, Fábio. O texto trata apenas sobre a inveracidade da frase. Nada além disso.
      Atenciosamente,
      Otávio Pinto.

  3. Warcraft 666

    O historiador mencionou que as frases foram ditas em um jornal alemão da época e não nesses artigos escritos. Você diz que não é verdade mas o fato onde o socialismo/comunismo passa acontece atrocidades. Dizem de Pinochet e da Ditadura Brasileira, mas incomparável com o número de mortes na URSS e na China (40 milhões e 70 milhões, respectivamente), corroborando com essa ideologia. Quando algo dá errado, outro comunista diz “deturparam Marx”. Na verdade Marx era deturpado, aliás, sustentado pelo Engels a vida toda. Só acho estranho não tentar negar outras verdades ditas tais como Stálin/Lenin mandarem matar pessoas na União Soviética. Ah sim, de nada por visitar o seu site, afinal, você só sabe dizer “obrigado pela visita, apenas me referi a invericidade da frase”. Mises mandou abraço.

    • Otávio Pinto

      Obrigado pela visita, Warcraft 666.
      Caro leitor, não disse que Engels não publicou seu artigo num jornal alemão da época. Realmente, o historiador diz expressamente sobre o texto de Engels: “Ele primeiro apareceu em janeiro, 1849, no jornal de Marx, ‘Neue Rheinische Zeitung'”. Entretanto, no link do artigo na íntegra (providenciado no texto: http://marxists.anu.edu.au/archive/marx/works/1849/01/13.htm ), também há essa mesmíssima informação (tradução livre): “Escrito por Engels em 8 de janeiro de 1849; primeira publicação no ‘Neue Rheinische Zeitung’, n. 194, em 13 de janeiro de 1849”. Enquanto o artigo de Marx foi publicado pela primeira vez no “New York Daily Tribune” em 22 de março de 1853.
      Sim, repeti a mesma frase, pois, ao meu ver, houve o mesmo equívoco: supor que há nesse texto algum tipo de defesa do marxismo/comunismo e/ou dos dos governos da China e União Soviética. Como disse e repito: “o texto trata apenas sobre a inveracidade da frase. Nada além disso”.

      Atenciosamente,
      Otávio Pinto.

    • Alexandre

      Ainda bem que em nosso sistema atual não temos atrocidades.

  4. Patrick

    Obrigado por desconstruir esta mentira, o ódio ignorante à base científica do marxismo só faz reforçar suas teses, novamente muito obrigado por contribuir desta forma para a história.

  5. JULIANO RODRIGUES BRASIL DOS REIS

    no minuto descrito o historiador deixa claro q na data mencionada janeiro de 1849 ”primeiro apareceu no jornal de marx,engels escreveu sobre a guerra de classes nos termos de marx”,ou seja seguindo ideologia de marx,orientado pelo mesmo,acho que está claro que não foi engels quem citou tal afirmação,e que talvez tenha apenas repetido,claro,digo isso apenas nesse texto,porque ideologicamente partilhava ferozmente dessa ideologia assassina,ainda sim mudando tal frase talvez,mas não mudando seu sentido.marxismo cultural da depressão.

    • Otávio Pinto

      Obrigado pelo comentário, Juliano. O historiador fala sobre o texto escrito por Engels, mas logo em seguida o documentário comete o equívoco de atribuir um trecho daquele texto a Marx (além de insistir no uso do termo “holocausto revolucionário”, inexistente na fonte primária). Ou seja, o documentário utilizou dois textos (um de Marx, outro de Engels) e acrescentou o termo “holocausto revolucionário”, para criar a “citação de Marx”.
      Por não ser marxista, não tenho nenhum interesse em rebater críticas ao marxismo neste post ou em qualquer outro artigo deste blog.

  6. Felipe Martins

    Parabéns pelo artigo e pela paciência em responder aos Boçais. Mesmo com todos os artigos e livros do cara disponíveis digitalmente no Marxist.org, a galera prefere acreditar em mentiras. Abraço

  7. Ranza

    okay
    mas quando diz que as raças fracas vão perecer isso não seria um forma de racismo?

    • DIEGO

      Isso mesmo, uma frase e outra nada mudará o sentido, ou seja, a essência de destruir outros povos.

  8. Ranza

    quem é ele pra dizer quem são fracos?
    como ele decide isso?
    perecer como?

  9. Ranza

    queria que um marxista respondesse isso
    sem me xingar fazendo o favor 🙂

  10. Emílio

    suas fontes não colocaram o jornal, já no video tem! ou será que Bernard Shaw também leu errado? tem video dele concordando!

  11. lucas

    Encontrei esse mesmo erro no livro

    ‘O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota’, de Olavo de Carvalho.

    É uma pena pois da mesma forma que a esquerda publica informações manipuladas a direita faz o mesmo. Temos que sempre confirmar se a fonte primária diz o mesmo.

  12. Francisco Seixas

    Prezado Otávio Pinto.

    De minha parte, entendi perfeitamente seu objetivo de crítica restrita à inveracidade da frase. Em nenhum instante demonstrou qualquer simpatia à ideologia Marxista, colocando-se de forma imparcial.

    Acima de tudo, quero parabenizá-lo pela elegância, cordialidade e fidalguia com que respondeu à alguma questões colocadas de forma mais passional e agressiva.

  13. Renato Russo

    A direita conservadora do Brasil precisa de tratamento psicológico ou voltar pr ensino fundamental. Frase falsa atribuída a Marx, sem ad homines, mas não tem como deixar o aspecto canalha, mau caráter e pseudo científico dessa direita brasileira corrupta, moralista sem moral e falaciosa, a direita brasileira repete o Mein Kampf e a tática Mein Kampf de Hitler de 1923. Não existe um trecho nas centenas obras de Marx em que ele defenda o estado, pelo contrário, “o estado esmaga o oprimido” ouça a internacional comunista, leia o manifesto e não seja um conservador mau caráter e desonesto intelectual.

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