Futebol, política, religião, cultura, história e outros assuntos interessantes

Futebol

Zico não é o meia com mais gols na história do futebol

ANIBAL PHILOY 01/08/1979 AGÊNCIA O GLOBO.

Share Button

Comum ver por toda a internet (exemplos nas imagens abaixo) pessoas e páginas denominando Arthur Antunes Coimbra, o Zico, como o meia com mais gols na história do futebol. Entre jogos oficiais e jogos hoje não considerados oficiais, ele marcou 826 tentos, segundo o seu próprio site. Há controvérsias em relação ao número de gols “oficiais” (essa mania anacrônica europeia de reescrever a história do nosso futebol), geralmente se fala em pouco mais de 500.

Embora tenha sido um grande gênio do futebol (para mim, facilmente um dos 15 maiores jogadores em todos os tempos), a lenda flamenguista não pode ser detentora do recorde de gols anotados por um meia, em razão dos argumentos expostos a seguir.

Compre um PS5 e jogue FC24 com lendas do Futebol

Inicialmente, essencial relembrar como a maioria dos times brasileiros atuava desde o final dos anos 50 até o final dos anos 80: o 4-2-4. Do meio de campo até o ataque, as equipes eram formadas por um volante (o camisa 5), um meia-armador (o camisa 8, também chamado de meia-direita), um ponta de lança (o camisa 10, de igual modo denominado de meia-esquerda), um ponta direita (camisa 7), um centroavante (camisa 9) e um ponta esquerda (camisa 11). Alguns times invertiam os números dos meias-armadores e ponta de lança, assim o armador jogava com a 10 e o ponta de lança com a 8 — no Palmeiras, por exemplo, Ademir da Guia, meia-armador, vestia a 10 e Leivinha, ponta de lança, vestia a 8. Vale ainda dizer que em Portugal, ponta de lança é sinônimo de centroavante; não no Brasil, onde o ponta de lança jogava sempre atrás de um centroavante.

Na imagem acima, vemos Zico na votação de bola de prata da Placar, não como meia-armador, mas como ponta de lança, posição que exerceu em seu auge no Flamengo. Sim, a equipe carioca também atuava no esquema tradicional, haja vista o time campeão mundial de 1981: volante (Andrade), meia-armador (Adílio), ponta de lança (Zico), ponta direita (Tita), centroavante (Nunes) e ponta-esquerda (Lico). Vê-se no desenho tático abaixo que o 4-2-4 parecia um 4-2-3-1 atual.

O mestre Tostão, outro magnífico ponta de lança (apesar de ter jogado improvisado de centroavante na Copa de 1970), explica como atuava o Galinho:

Na terminologia antiga, Zico era um ponta-de-lança, atacante que recuava até o meio-campo para receber a bola, driblava, tabelava, colocava o companheiro na frente do goleiro e fazia gols espetaculares, de todos os tipos. Era o camisa 10. O Rei Pelé e os super-craques Maradona, Di Stefano, Cruyff e Platini também atuavam nesta posição.

O ponta-de-lança parecia com o atual armador ou meia ofensivo, o número um, que faz a ligação entre o meio-campo e ataque, como Kaká, Alex, Zidane e outros. O ponta-de-lança era mais atacante do que armador. O meia atual é mais armador do que atacante. Rivaldo e Kaká têm mais características de ponta-de-lança, atacante. Zidane, Alex e Ronaldinho Gaúcho são mais organizadores, armadores.

Para complementar o tema, vale mencionar lições de André Rocha e Paulo Vinicius Coelho (PVC), competentes jornalistas.

André Rocha:

Ponta-de-lança: função no futebol do meio-campista que joga à frente dos seus companheiros no setor, armando jogadas e se aproximando dos atacantes, fazendo dupla na área adversária com o centroavante. Cria e finaliza. Ora arco, ora flecha.

Era assim que jogavam Pelé, Puskas, Maradona, Bobby Charlton, Tostão, Leivinha, Alex…No futebol brasileiro, Zico foi a grande referência depois de Pelé como este meia que organiza e chega no ataque. Faz gols e serve assistências. Com muita objetividade. “Meu negócio não era fazer graça, não. Era fazer gol”. Assim definiu seu estilo o próprio “Galinho de Quintino”.

(…)

Em determinado momento da história ficou a impressão de que essa maneira de jogar havia entrado em extinção, com meias jogando mais abertos ou se transformando em atacantes. Ou recuando para pensar o jogo de trás, como o próprio Zico fez em 1989, o último ano dele como profissional, antes de se aventurar como técnico e jogador no futebol japonês.

PVC:

No passado, a camisa 10 representava o ponta-de-lança, como Pelé e Zico, ou o meia-armador, como Ademir da Guia e Gérson, número 8 no Botafogo e na seleção, 10 no São Paulo bicampeão paulista em 1970 e 1971.

Nota-se que, corretamente, Tostão, PVC e André Rocha agrupam Pelé e Zico na mesma posição: ponta de lança. Assim como o santista, o flamenguista era o grande artilheiro do seu clube, armava jogadas, mas não era o principal organizador da equipe; função do meia-armador. Mister salientar que Rocha claramente diferenciou o Zico do meia-armador, quando destacou que aquele apenas “recuou para pensar o jogo de trás” em 1989, último ano dele no Flamengo.  Para mais detalhes sobre a posição do Rei, recomendo a leitura do meu artigo “Pelé era um autêntico camisa 10: a posição do Rei em campo e as táticas da era de ouro do futebol brasileiro”.  Você pode conferir diversas evidências, como esta: o próprio gênio santista se declarando um jogador de meio de campo (vídeo abaixo):

Ora, o leitor mais atento provavelmente já previu as conclusões desse texto. Se por meia, considera-se o meia-armador, Zico não atuava nessa posição e não pode ser listado como tal. Se por meia, fala-se no ponta de lança (algo próximo do meia-atacante atual), então Zico não pode ser tachado de meia com mais gols na história do futebol, pois existiu um tal de Pelé, que fez 1.283 gols (ou 767 gols em jogos “oficiais”).

Share Button

1 Comment

  1. Gabriel

    Parabéns pelo texto, amigo! Como sempre abalizado por muito conteúdo! Saudações e Pelé Eterno!

Leave a Reply

Loading Facebook Comments ...
//inicio clever