Caros leitores, explicarei nesse artigo por quais motivos considero Pelé o maior de todos os tempos. Acompanhem a seguir as sete afirmativas justificadoras desse entendimento.

1 – Porque ele foi o jogador ofensivo mais completo da história do futebol

Pelé não tinha defeitos aparentes no seu jogo.  Os craques lendários Tostão e Gianni Rivera, respectivamente, explanam:

Tostão:

Pelé tinha, em altíssimo nível, todas as virtudes e características técnicas, físicas e emocionais de um craque. 

O Pelé foi o maior de todos porque tinha tudo: inteligência de jogo, habilidade, criatividade, chutava, era veloz, cabeceava, fazia tudo.

Gianni Rivera:

Messi é uma arma para o Barça. Tê-lo no time é imenso; ele é o jogador mais decisivo atualmente. Entretanto, eu acho que há alguém que foi ainda melhor e esse é o Pelé. Ele usava os dois pés em campo. Ele era tão perigoso com a direita quanto com a esquerda. Ele era forte no alto também, e criava muitas chances.

O pé preferido do Rei era o direito, mas ele era capaz de usar perfeitamente o esquerdo; chutava com potência e precisão, e dava passes magistrais, como visto no vídeo abaixo:

Também possuía um fantástico controle de bola:

Excelente no jogo aéreo (apesar da relativa baixa estatura, 172 cm), anotava tentos incríveis de cabeça:

Ainda que não conhecido como especialista em faltas, Pelé é o segundo jogador com mais gols nesse quesito na história do futebol, com 70 gols (atrás apenas do expert Juninho Pernambucano). Anotou tentos em cobranças das mais diferentes maneiras: com chutes fortes ou mais fracos, e de curta e longa distâncias:

Enfim, forte, potente, veloz, habilidoso, ambidestro, Pelé driblava e fazia gols de todos os modos possíveis:

2 – Porque ele fez sim mais de 1000 gols

Preliminarmente, mister esclarecer que, apesar do número incrível de gols, Pelé jamais foi centroavante. Atuava como camisa 10, o ponta de lança, que na sua época parecia com uma mistura de meia com o segundo atacante do futebol atual (sugiro a leitura do meu artigo intitulado: “Pelé era um autêntico camisa 10: a posição do Rei em campo e as táticas da era de ouro do futebol brasileiro”). Por conseguinte, não foi um simples artilheiro; também era impressionante na armação de jogadas (é o líder em assistências na história das Copas do Mundo).

Pelé marcou 1282 gols em toda sua carreira profissional (portanto, não se conta aqui gols pela divisão de base do Santos ou por seleção de jovens do Brasil). Desses, 767 em jogos considerados nos tempos atuais como “oficiais”. Por isso, muitos desconsideram os 515 gols marcados em jogos amistosos. Considero um equívoco gigantesco (fruto de anacronismo ignorante) desprezar todos aqueles 515 tentos pelas razões a seguir.

De início, importante informar que a média de Pelé permaneceu praticamente a mesma em jogos oficiais (0,92 gol por jogo) e não oficiais (0,94).

Pois bem, na época do Rei, os amistosos não tinham o pouco peso que possuem hoje em dia (pouquíssimos jogos e sem importância). Para se ter ideia, o Santos chegou a deixar de disputar 3 edições da Taça Libertadores (66, 67 e 1969) para competir em torneios “amistosos” por todo o mundo. Muitos desses torneios e jogos amistosos eram extremamente competitivos (as equipes faziam questão de tentar vencer o magistral time do maior jogador do mundo) e reuniam as melhores equipes do planeta com seus elencos titulares (Real Madrid com Puskas, Gento e Di Stefano; Barcelona com Evaristo, Kocksis e Czibor; ambos em 1959);  tem-se por exemplo o torneio de Nova Iorque de 1966, no qual o Santos venceu um Benfica completo (base da seleção de Portugal, com os craques Eusébio e Coluna) por 4 a 0:

Aliás, costuma-se também desprezar a enorme quantidade dos gols de Pelé, pois marcados em sua grande maioria no futebol brasileiro. Ora, não se pode julgar o nível do futebol brasileiro daquela época pelo jogado aqui hoje. O Brasil teve sua geração de ouro na era Pelé, vencendo 3 de 4 copas do mundo (nessas conquistas, todos os jogadores brasileiros atuavam dentro do Brasil). Além de atletas lendários brasileiros, havia grandes craques sul-americanos no futebol pátrio como Perfumo e Pedro Rocha. Mesmo times hoje considerados pequenos tinham grandes jogadores; vale lembrar que Djalma Santos era jogador da Portuguesa durante a Copa do Mundo de 1958. Assim, Pelé enfrentava rotineiramente todos esses jogadores em diversas competições como Campeonato Paulista (possuía muito mais importância que nos tempos atuais; o Santos dava mais valor a um título paulista do que um da libertadores), Torneio Rio-São Paulo, Taça Brasil, Torneio de Seleções estaduais, entre outros. Igualmente, não se pode esquecer da sua incrível média de gols contra times europeus: 1,10 gol por jogo; 144 gols em 130 jogos (números superiores à média de sua carreira).

Leitores, como desprezar a sequência de estirpe em 1959? 10 gols em 6 jogos (todos disputados num minúsculo intervalo e fora do Brasil) contra times do tamanho de Internazionale, Valência, Sporting (segundo time com mais jogadores na grande seleção portuguesa dos anos 60), Real Madrid (com Puskas, Gento, Di Stefano, Santamaría e Del Sol), Barcelona (Evaristo, Kocsis e Czibor) e Botafogo (Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zagallo). Observação: escalação dos times consta no ótimo “Almanaque do Santos” (Nascimento, Guilherme. Almanaque do Santos FC: 1912-2012. 1º edição. São Paulo: Magma Cultural e Editora, 2012).

17/06/1959 Santos 3 x 5 Real Madrid/ESP – Pelé marcou 1 gol;
19/06/1959 Santos 2 x 2 Sporting/PORT – Pelé, 1 gol;
21/06/1959 Santos 4 x 1 Botafogo-RJ – Pelé, 1 gol;
24/06/1959 Santos 4 x 4 Valencia/ESP – Pelé, 1 gol;
26/06/1959 Santos 7 x 1 Internazionale/ITA – Pelé, 4 gols;
28/06/1959 Santos 5 x 1 Barcelona/ESP – Pelé, 2 gols.

Outra crítica comum corresponde a de que Pelé apenas fez tantos gols, pois a média de gols de sua época era imensamente maior (há pessoas que acham que se fazia o dobro, triplo ou até quádruplo de gols em relação aos tempos atuais). Há um pouco de verdade nessa frase: a média realmente era superior. Contudo, era apenas levemente superior, como evidenciado no histórico de gols em Copas (veja que na era Pelé, apenas em 1958 há um número consideravelmente mais elevado):

http://futdados.com/media-de-gols-copas-do-mundo/

Aliás, mesmo se adaptarmos o número de gols do Rei em relação ao total de gols de sua equipe, vemos que ele ainda assim marcava percentualmente mais gols por seu clube do que um gênio artilheiro como Messi.

Existe também o seguinte argumento: “Pelé contou até gol pelo exército”. Realmente, há a contagem desses tentos entre os 1282. Todavia, foram apenas 13 no total. Pode-se facilmente eliminá-los sem grandes prejuízos. Ademais, importante perceber a quantidade absurda de jogos que Pelé fazia em cada ano (pois o Santos ganhava bastante dinheiro em excursões). Ele chegou a disputar 103 “matches” em 1959 (quase 1 jogo a cada 3 dias, incluindo vários fora do Brasil), anotando incríveis 127 gols. Ora, imaginem como seria ainda mais impressionante o número de gols em jogos oficiais de um Pelé com mais dias de repouso (sem tantos amistosos e viagens). Outro motivo que torna injusta a simples exclusão total dos seus gols em jogos amistosos.

Não se pode olvidar que no futebol atual há muitos mais jogos e torneios oficiais do que antigamente. Aliás, essa é a razão pela qual Neymar, provavelmente, passará Pelé em gols oficiais pela Seleção Brasileira mesmo possuindo uma média consideravelmente inferior (0,62 para Neymar e 0,84 para Pelé) e enfrentando regularmente seleções fracas como El Salvador e Honduras em amistosos “caça-níqueis”.

Ante tudo o que foi escrito até aqui, acredito ser possível concluir que Pelé sim marcou mais de 1000 gols. Mesmo se nós eliminarmos todos os gols envolvendo equipes combinadas e sindicatos (Pelé fez 3 gols pelo Sindicato de atletas de São Paulo, 6 pelo combinado Vasco/Santos, 1 contra o combinado Flamengo/Juventude, 2 contra a Bulgária B, 2 contra o combinado Sampdoria/Genova, 2 contra os All Stars dos EUA e 1 pela seleção do sudeste; 17 no total) seleções estaduais (9 pela Seleção Paulista; aliás, bom informar que eram jogos competitivos segundo os atletas e jornalistas da época), seleção do exército (13) e gols não oficiais pela seleção brasileira (18 no total), e contarmos apenas os seus gols oficiais e em amistosos contra times europeus, brasileiros e sul-americanos (entre outros), Pelé ainda teria incríveis 1225 gols!

3 – Porque ele foi vencedor pelos seus clubes

Além dos números individuais incríveis pelo Santos (643 gols em 656 jogos oficiais; média de 0,98 por jogo), Pelé venceu várias vezes todos os títulos mais importantes de sua época:

Campeonato Paulista: 1958, 1960, 1961, 1962, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969 e 1973 (observação: campeonato de extrema importância e com mais jogos na época do Rei; ele foi artilheiro 11 vezes, incluindo 9 vezes seguidas entre 1957 e 1965);

Torneio Rio-São Paulo: 1959, 1963, 1964 e 1966;

Campeonato Brasileiro: 1961, 1962, 1963, 1964, 1965 e 1968;

Taça Libertadores da América: 1962 e 1963;

Copa Intercontinental: 1962 e 1963;

Supercopa Sulamericana dos Campeões Intercontinentais: 1968;

Recopa dos Campeões Intercontinentais: 1968.

Vale destacar o seu desempenho fenomenal contra Milan e Benfica no Intercontinental de Clubes (7 gols em 3 jogos). Nesta competição em 1962, ele teve inclusive, o que muitos consideram o maior jogo de sua carreira, aniquilando o Benfica (campeão europeu daquele ano) com incríveis 3 gols e 1 assistência.

4 – Porque ele foi vencedor pela seleção brasileira

Novamente, além dos números individuais sensacionais (77 gols em 95 jogos oficiais, média de 0,84), Pelé conquistou inúmeros títulos pela Seleção Brasileira, merecendo destaque seus inéditos e até hoje não alcançados 3 títulos de Copa do Mundo:

Copa do Mundo: 1958, 1962 e 1970;

Copa Rocca: 1957 e 1963;

Taça do Atlântico: 1960;

Copa Oswaldo Cruz: 1958, 1962
e 1968;

Taça Bernardo O’Higgins: 1959.

Importante salientar que, realmente Pelé, apenas disputou uma partida completa na Copa de 1962, pois sofreu uma lesão no segundo jogo da fase de grupos contra a Tchecoslováquia. Sobre esse assunto, jornalistas como o inglês Tim Vickery argumentam que aquele seria o melhor mundial de Pelé, uma vez que estava no seu mais absoluto auge, haja vista o seu grande desempenho (1 golaço e 1 assistência) na partida inaugural contra o México na Copa de 1962:

Nas copas de 1958 e 1970, Pelé foi magistral. Em 58, aos 17 anos, anotou 6 tentos em quatro jogos (incluindo 3 na semi-final contra a França e 2 na final contra a Suécia).

Em 70, liderou o que muitos consideram ser o melhor time de todos os tempos, sendo inclusive escolhido melhor jogador do torneio. Sua performance foi marcada por jogadas geniais, inclusive lances nos quais ele não marcou gol.

Em suas participações em Copas do Mundo, Pelé anotou 12 gols e 10 assistências (líder de todos os tempos nesse quesito) em 14 jogos.

Na única Copa América disputado por ele, em 1959 na Argentina, o Rei terminou como artilheiro e o Brasil invicto, mas em segundo lugar (um empate controverso contra os donos da casa no último jogo decidiu o título — o torneio foi por pontos corridos).

5 – Porque ele foi decisivo em finais

Os americanos chamam de “clutch” o jogador que aparece nos grandes momentos. Assim, pode-se claramente denominar Pelé de “super clutch”, porque foi extremamente decisivo nas grandes finais que disputou. Incrivelmente, ele apenas não fez gol num único jogo eliminatório decisivo de título: um 0 a 0 no Maracanã no segundo jogo da final da Taça Brasil de 1964. Entretanto, importantíssimo salientar que Pelé marcara 3 gols num acachapante triunfo por 4 a 0 no primeiro jogo daquela final.

Ademais, Pelé apenas esteve em campo em uma final perdida em toda sua carreira: pelo Santos contra o Cruzeiro no segundo jogo da final da Taça Brasil de 1966. Na outra final perdida por Pelé, ele estava machucado no último jogo contra o Bahia na Taça Brasil de 1959.

Segue abaixo um resumo dos seus números em finais (a lista completa de jogos pode ser vista no meu artigo “Pelé e Messi em finais”):

14 finais;

12 finais vencidas (85.71%);

2 finais perdidas (14,29%);

23 jogos: 17 vitórias (73,91%), 1 empate (4,34%) e 5 derrotas (21.73%);

Gols pró – 69 (3 por jogo)

Gols contra – 35 (1,52 por jogo)

Gols do Pelé – 29 gols – média de 1,26 por jogo.  42,02% dos gols de duas equipes. 27,61% do total de gols nos jogos. O grande Messi, por exemplo, até 21 de junho de 2016, possuía, em finais, 23 gols, numa média de 0,71 por jogo (39,65% % dos gols de suas equipes e 24,46% do total de gols nos jogos)

Jogos com 3 gols – 3 (13,04%)

Jogos com pelo menos 2 gols –
10 (43,47%)

Jogos com pelo menos 1 gol – 16
(69.56%)

Jogos sem marcar – 7 (30,43%)

6 – Porque as maiores lendas do futebol consideram Pelé o melhor de todos

Segundo levantamento que fiz no artigo “O maior jogador da história do futebol segundo as grandes lendas do esporte”, vários dos maiores nomes (jogadores e técnicos) da história do futebol mundial (todos em opiniões dadas nos últimos 10 anos, ou seja, chegaram a ver Maradona, Ronaldo, Messi e outros craques mais recentes) têm Pelé como maior de todos. Vejam exemplos abaixo (as referências estão no artigo original):

Di Stéfano em 2012:

O maior jogador de todos os tempos? Pelé. Messi e Cristiano Ronaldo são dois grandes jogadores com qualidades específicas, mas Pelé foi melhor;

Zico em 2014:

Não há dúvidas de que ele foi o melhor de todos. Quando Deus fez Pelé, ele pôs nele tudo o que um jogador de futebol precisa. Ele sabia como chutar, como driblar, como cabecear, usar o físico. Ele tinha tudo o que um jogador precisa ter. É difícil para alguém atingir o que ele atingiu no futebol”.  “(…)Taticamente, tecnicamente, fisicamente, mentalmente, ele era o melhor. Muito das coisas que eu aprendi foram do álbum de figurinhas do Pelé: como cabecear, como chutar a bola. Era um guia passo-a-passo. Eu aprendi de Pelé quando era criança;

Gianni Rivera em 2012:

Messi é uma arma para o Barça. Tê-lo no time é imenso; ele é o jogador mais decisivo atualmente. Entretanto, eu acho que há alguém que foi ainda melhor e esse é o Pelé. Ele usava os dois pés em campo. Ele era tão perigoso com a direita quanto com a esquerda. Ele era forte no alto também, e criava muitas chances;

Menotti (argentino, técnico campeão da Copa do Mundo de 1978; também treinou Maradona na Copa de 1982) em 2012:

O maior que vi em minha vida foi Pelé. Uma mistura de Di Stéfano, Maradona, Cruyff, Messi, em um jogador;

Franz Beckenbauer em 2015:

Mas hoje ele (Messi) é o melhor jogador do mundo e do seu tempo. Entretanto, o melhor de todos os tempos é Pelé. Ele está simplesmente à frente do Messi. Nunca vi um jogador como Pelé.

7 – Porque ele foi inovador no seu esporte e rompeu barreiras raciais

Para compreender a magnitude do impacto de Pelé durante sua carreira, importante entender o quanto colossal era o racismo naquele período (que, infelizmente, ainda persiste em outras formas nos tempos atuais). Em 1958, ano do primeiro título mundial de Pelé, havia apenas 11 anos do rompimento da barreira racial nos esportes americanos por Jackie Robinson (primeiro jogador negro da era moderna na liga americana de baseball), 8 anos da participação efetiva de negros na liga americana de basquete, e pior, pasmem, assustadoramente, ainda existiam na Europa “exposições” nas quais negros eram expostos como se fossem animais exóticos. Como diria o nossso poeta Castro Alves: ” Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade tanto horror perante os céus?!”.

De cortar o coração: garota africana exposta entre cercas para pessoas brancas em Bruxelas na Bélgica em 1958

Nesse período assustador, um jovem brasileiro e negro foi aclamado em estádios pela Europa, Estados Unidos e todo o mundo, como o verdadeiro Rei do Futebol. Um feito fantástico, inacreditável e revolucionário. Essencial repetir aqui trecho do meu texto “Pelé e o racismo“ para explicar como, mesmo sem, infelizmente, jamais ter tomado uma postura ativa na luta contra o racismo, felizmente, Pelé teve papel importantíssimo nessa questão:

Mas, mesmo sem participar do ‘ativismo negro’, Pelé teve, especialmente enquanto superastro futebolístico (1958 a 1977), importância na luta contra o racismo. Para tanto, foi suficiente a negritude do maior jogador do esporte mais popular da terra e verdadeiro ídolo mundial numa época extremamente racista. Nessa posição, ele quebrou barreiras até então intransponíveis, como, por exemplo, ser tratado como verdadeira majestade e lenda viva na Europa, e ser o primeiro negro capa da tradicional revista americana Life Magazine (de um país, Estados Unidos, onde ainda imperavam leis segregacionistas). Ademais, Pelé servia de inspiração ao não demonstrar vergonha de sua cor; essa era a visão daquela época, relatada pelo lendário Mário Filho (autor da clássica obra ‘O negro no futebol brasileiro’), como explicam os historiadores Francisco Carlos Teixeira da Silva e Ricardo Pinto no livro ‘Futebol e Política — Memória Social dos Esportes’: ‘Segundo Mário Filho, o recrudescimento do racismo decorrente da derrota da final de 50 só seria sobrepujado com a vitória do selecionado brasileiro na Copa de 58. Aquela superação passaria pelos pés mágicos de um mulato e de um negro, respectivamente, Garrincha e Pelé. Na verdade, caberia a Pelé metamorfosear o estatuto do jogador de futebol negro. Diferente dos craques negros do passado, Pelé não teria vergonha de sua cor, sentia orgulho de ser preto. Gostava, inclusive, de ser chamada de — O Crioulo — , — o Preto — . Tal postura do maior jogador brasileiro servia de exemplo para os demais atletas que ainda se sentiam inferiorizados com sua tez. Daí a conclusão do jornalista: faltava alguém assim como Pelé para completar a obra da Princesa Isabel. O preto era livre, mas sentia maldição da cor. A escravidão da cor’.

Mário Filho ainda concluiu na referida obra sobre o papel de Pelé:

Realmente os pretos do futebol procuraram, à medida que ascendiam, ser menos pretos. Mandando esticar os cabelos, fazendo operações plásticas, fugindo da cor. Daí a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, mas para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória. Nenhum preto, no mundo, tem contribuído mais para varrer barreiras raciais do que Pelé. Quem bate palmas para ele, bate palmas para um preto. Por isso Pelé não mandou esticar os cabelos: é preto como o pai, como a mãe, como a avó, como o tio, como os irmãos. Para exaltá-los, exalta o preto. Por isso é mais do que um preto: é ‘o Preto’. Os outros pretos do futebol brasileiro reconhecem-no: para eles Pelé é ‘o Crioulo’.

Além da questão racial, essencial outrossim a influência de Pelé no futebol em si. Antes dele, o número 10 era apenas como qualquer outro; depois dele (o número, curiosamente, lhe foi sorteado na Copa de 1958) passou a representar o grande craque dos times em todo o mundo, usado por lendas geniais como Zico, Maradona, Zidane, Ronaldinho e Messi.

Pelé também foi inovador na parte física e técnica. Como Cristiano Ronaldo, ele se sobressaia fisicamente sobre seus adversários; levava muito a sério seu condicionamento atlético, ao revés de outros atletas de seu tempo. Aliado a isso, ele foi genial e inovador na parte técnica, criando e aprimorando movimentos e dribles usados até hoje, como visto no sensacional vídeo abaixo:


Enfim, por todas essas razões outrora expostas, Pelé ainda é o maior de todos os tempos!

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