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Indubitavelmente, os grandes compositores (como artistas de outras áreas) costumam encontrar inspiração em livros de autores renomados. Aliás, essa circulação de escritos entre artistas corresponde à própria natureza da literatura. Nesse sentido, Irene Severina Rezende, Doutora pela USP em Estudos Literários de Literatura Comparada, diz, parafraseando o grande Antonio Cândido, que “a literatura deve circular, ser lida e ser deformada ao gosto de cada público e à maneira de cada autor”.

Dessa maneira, os grandes compositores como Chico Buarque, Neil Young, Caetano Veloso, Bob Dylan (entre tantos outros), conseguem, de forma inteligentíssima e criativa, adaptar o espírito e a ideia de determinado escritor a uma linguagem e narrativa popular, de mais fácil entendimento ao público moderno. Portanto, em razão disso, não há que se falar em plágio, mas apenas em inspiração.

Pode-se citar como exemplos de canções influenciadas pela literatura: “Ramble on” do Led Zeppelin (inspirada, assim como outras da banda, em “Senhor dos Anéis” de Tolkien); “Monte Castelo” por Renato Russo (une capítulo da epístola de Paulo aos Coríntios ao mais famoso soneto de Luís de Camões) ; e “Geni e o Zepelim”, que possui relação direta com “Bola de Sebo” de Guy de Maupassant (sobre o tema, recomendo a leitura de “Similaridades temáticas além-fronteiras: Chico Buarque e Guy de Maupassant” da acima mencionada Irene Rezende, e de “Geni e o Zepelim X Bola de Sebo: a intertextualidade vista como um procedimento de originalidade”, de autoria da Mestre em Letras, Fernanda Isabel Bitazi).

Nesse texto, decidi escrever sobre duas canções que sofreram influências literárias até então desconhecidas ou pouco divulgadas: “Gotta Serve Somebody” de Bob Dylan; e “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso.

Gotta Serve Somebody – Bob Dylan.

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O mais genial letrista americano, Bob Dylan, é um aficionado por literatura. Por isso, são comuns, em suas canções, referências às palavras de grandes mestres do gênero. É o caso de “Tangled up in Blue”, a qual possui imagens que remetem à “Divina Comédia” de Dante e aos contos de Theckov (russo que, aliás, influencia todo o disco “Blood on the Tracks”).

Nos anos 80, Dylan vivia seu “período cristão”, quando escreveu várias músicas religiosas. Talvez a mais bela tenha sido “Every Grain of Sand”, com alusões a diversas passagens bíblicas e ao poema “Auguries of Innocence” de William Blake.

Nessa época, uma das suas músicas mais populares foi “Gotta serve somebody” (“Tem que servir alguém”). Durante toda a canção, Dylan passa a ideia de que todos, independentemente de fama ou dinheiro (o rico e o pobre; o famoso e o desconhecido), têm que servir alguém. “Pode ser o Diabo ou o Senhor, mas você terá que servir alguém”.

Nota-se claramente a influência cristã. Segunda essa tradição, todos nós somos iguais aos olhos do Criador, ao qual devemos servir.

Mas há outras inspirações, além da óbvia conotação bíblica? Creio que sim. Para minha surpresa, lendo “Moby Dick”, o clássico de Herman Melville, percebi uma passagem que corresponde quase que exatamente à mensagem de Dylan. O personagem principal, Ishmael, explica por que não possui vergonha de ter a função mais simples num navio:

E daí se um caco velho, um capitão decrépito me der a ordem de pegar uma vassoura e varrer os conveses? Qual é o valor dessa infâmia, quero dizer, se pesada na balança do Novo Testamento? Você acredita que o arcanjo Gabriel terá menos consideração por mim só porque obedeci com presteza e respeito a um velho miserável? Quem não é escravo? Responda essa. Pois bem, por mais que velhos capitães me deem ordens, por mais que me deem bordoadas e murros, tenho a satisfação de saber que está tudo certo, que todos os homens, de um jeito ou de outro, serviram do mesmo modo – isto é, tanto da perspectiva física quanto metafísica; e, assim, a bordoada universal dá a volta, e todos deveriam trocar tapinhas nas costas e dar-se por satisfeitos

Praticamente a mesma ideia passada por Dylan. “Quem não é escravo?  […] Todos os homens, de um jeito ou de outro, serviram do mesmo modo”.  Para reforçar meu argumento, importante dizer que Dylan demonstrou em outros momentos apreço pelo famoso livro de Melville, pois o mencionou em duas outras canções: Bob Dylan’s 115th dream (há várias referências a Moby Dick, especialmente quando fala sobre uma baleia e sobre um Capitão Arab – Ahab no livro); e Lo and Behold! (na frase “What’s it to ya, Moby Dick?).

Estranhamente, não encontrei nenhum texto ou livro que trata dessa inspiração de Dylan em “Moby Dick”, que, para mim, parece extremamente provável.

Alegria, Alegria – Caetano Veloso

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O tropicalismo sofreu forte influência do modernismo, sobretudo do movimento antropofágico (proposto por Oswald de Andrade). Em tempos nacionalistas na música brasileira, Caetano, Gil (como em sua canção em parceria com Torquato Neto, “Geleia gera”, por exemplo) e os tropicalistas, adotaram a antropofagia, “devorando” tudo o que havia em volta (na parte musical, significou sobretudo abraçar as inovações da música americana e inglesa).

Em relação à “Alegria, Alegria”, o doutor em Literatura Brasileira, Júlio Diniz, explana o caráter antropofágico de Caetano:

O antropófago tropicalista opera através do seu corpo e, particularmente, pela sua voz, a devoração e assimilação de comportamentos estéticos e políticos em boa parte opostos a uma visão hegemônica de cultura brasileira defendida por segmentos da esquerda intelectual, como já foi dito. Sua voz funciona como o lugar de passagem e permanência da bossa nova, e da tradicional família musical brasileira, para o tropicalismo – do intimismo ao excesso, da introspecção à espetacularização, do banquinho e violão ao concerto barroco das justaposições. A voz em Caetano sai da boca de um canibal tecnizado, doce bárbaro que devolve ao exterior tudo o que foi devorado pelo ouvido que internalizou a “contribuição milionária de todos os erros”, como já afirmou Oswald de Andrade.

Todavia, como bom “antropófago tropicalista”, Caetano, também, assimilou outros pensadores naquela canção, especialmente, Ferreira Gullar. Essa visão não é muito conhecida, mas o próprio poeta maranhense, em entrevista, explicou esse processo:

Essa parceria não nasceu de uma relação minha com Caetano. Foi a Maria Bethânia que me pediu, se eu gostaria de escrever para ela duas letras de fossa, de dor-de-cotovelo que ela queria gravar no seu disco de estreia. Então fiz e entreguei a ela duas letras, uma é “Onde Andarás” e a outra é um poema que também é do mesmo livro, que eu adaptei para servir como letra, porque como poema era muito longo. Mas Caetano só musicou uma delas, o outro poema eu acho que inspirou “Alegria Alegria”, porque fala “atravessa a rua, entra no cinema” é um poema urbano, que fala exatamente da cidade e o enfoque é o mesmo e o fato dele não ter posto música na minha letra e ter escrito “Alegria Alegria” dá a impressão de que ele achou melhor criar uma letra sobre aquele assunto. Existe na música “Alegria Alegria” uma expressão que é de um poema meu “o sol se reparte em crimes” isso é de um poema que diz assim: “A tarde se reparte em yorgut, coalhada, copos de leites” esse uso do verbo repartir nesse sentido é do poema “Na Leiteria”. “A tarde se reparte em copos de leite”, “o sol se reparte em crimes/espaçonaves guerrilhas”. Tudo bem, a função da poesia é essa, o poeta inventa as expressões e o artista popular, o compositor não tem essa função – é muito mais a de comunicar de maneira ampla com o público, não é de mudar a linguagem, de reinventar a linguagem isso é mais dos poetas […]


Essencial repetir que essas “revelações” em nada reduzem o valor e a grandeza de Dylan e Caetano. Pode-se utilizar, por analogia, as palavras de Fernanda Bitazi sobre Chico e Maupassant, e dizer que “Alegria, Alegria” e “Gotta serve somebody” mantêm originalidade, pois seguem um “processo criativo que consiste não em uma imitação direta e negligente, mas, sim, em uma imitação indireta e acurada”.

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