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O rechonchudo caçador de dragões.

Foto: E.O.Hoppe/ Getty Images

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Em homenagem a G.K Chesterton, grande escritor inglês, falecido há 79 anos (completados no último dia 14 de junho), escrevi o pequeno texto abaixo.

O rechonchudo caçador de dragões.

 

Roberto chegava sempre muito tarde em casa e, infelizmente (como muitos trabalhadores), não possuía muito tempo para desfrutar da companhia de seu filho de 11 anos, Fernandinho.

Mas, religiosamente, sempre contava uma história (os céticos chamam de contos de fadas) para o seu filho dormir. Não era incomum repetir algumas, pois achava que as histórias sempre devem ser recontadas até que se consiga realmente entendê-las.

Continuou assim até quando o filho começou a crescer e perder a sabedoria da infância.

Num dia, Roberto começou outra de suas “inéditas” histórias antigas:

– Era uma vez um dragão que atormentava a vida de todos os moradores… – Subitamente, ele foi interrompido pelo seu filho:

– Pai, não quero ouvir essa história de novo e já estou cheio de ouvir contos de fadas. Não sou mais um bebê. Quero coisas verdadeiras.

Roberto parou durante alguns segundos e disse:

– Filho, você lembra como o herói derrotou o dragão? Ele foi corajoso e enfrentou aquele monstro que todos temiam. Apesar de todas as adversidades e de sua pequenez física em relação à fera, conseguiu superá-la com muita inteligência e fé.

– E daí, Pai? Dragões não existem. Contos de fada não são de verdade.

–  Filho, “contos de fada são mais que verdadeiros, não porque nos dizem que dragões existem, mas por que nos mostram que dragões podem ser derrotados”*. Se você se comportar como aquele grande herói, poderá enfrentar todos os dragões que aparecerem em sua vida.

Fernandinho olhou para Roberto, admirando sua sabedoria, o abraçou e perguntou:

– Pai, quem foi que lhe contou essas coisas?

– Foi um senhor rechonchudo inglês chamado G.K Chesterton. Depois de São Jorge, foi o maior caçador de dragões que já existiu em todo o mundo – sorriu o velho e sábio pai.

* Essa frase tem uma história interessante. Ficou famosa após ser erroneamente atribuída a Chesterton por Neil Gaiman no livro “Coraline”. Ele recitou de memória e acabou redigindo uma frase diferente. Apesar de não ter sido escrita palavra por palavra por Chesterton, claramente retrata espírito da seguinte passagem escrita pelo grande católico inglês:

Dessa forma, os contos de fadas não são responsáveis por produzir nas crianças o medo ou qualquer uma de suas formas; os contos de fadas não dão à criança a ideia do mau ou do feio; estas já estão nela, porque já estão no mundo. Os contos de fadas não dão à criança sua primeira ideia de fantasma. O bebê conhece intimamente o dragão desde que começa a imaginar. O que o conto lhe dá é um São Jorge para matá-lo. O que o conto de fadas faz é exatamente isto: acostuma-a, através de uma série de imagens claras, à ideia de que esses terrores ilimitados têm um limite, que esses inimigos sem forma têm como inimigos os cavaleiros de Deus, que há no universo algo mais místico do que a escuridão e mais forte do que o medo intenso. ” (Tremendas Trivialdades.  Crônica “O anjo vemelho”. Campinas: Eclessiae, 2012, p.112).

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2 Comments

  1. Roberta

    Contos de fadas são os melhores!

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